Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de parceiros da ONU revela que a violência contra mulheres e meninas continua sendo uma emergência global, com avanços mínimos nos últimos 20 anos. Segundo o estudo, uma em cada três mulheres — cerca de 840 milhões — já foi vítima de violência física ou sexual ao longo da vida.
Apenas no último ano, 316 milhões sofreram agressões de um parceiro íntimo. Em 2024, cerca de 16% das adolescentes de 15 a 19 anos passaram a integrar essas estatísticas.
A OMS reforça o alerta: enfrentar a violência contra mulheres e meninas exige medidas urgentes, compromisso político e ação contínua.
Violência sexual cometida por não parceiros também cresce
Pela primeira vez, o relatório inclui estimativas nacionais e regionais sobre violência sexual praticada por pessoas que não são parceiros íntimos. Segundo o estudo, 263 milhões de mulheres já sofreram esse tipo de agressão desde os 15 anos. Especialistas lembram que o número real pode ser muito maior, devido ao estigma, ao medo e à falta de notificação.
Os dados englobam informações coletadas entre 2000 e 2023, em 168 países, e mostram que o cenário de violência é agravado por desigualdades econômicas, instabilidade política e o impacto de novas tecnologias, que ampliam riscos e vulnerabilidades.
Financiamento insuficiente para prevenção
Outro ponto crítico é o corte de recursos destinados a enfrentar o problema. Em 2022, apenas 0,2% da ajuda ao desenvolvimento global foi direcionada à prevenção da violência contra as mulheres. Em 2024, o financiamento diminuiu ainda mais.
Para Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, a violência contra as mulheres é “uma das injustiças mais ignoradas da humanidade”, lembrando que cada estatística representa uma vida profundamente marcada pela agressão.
Impactos na saúde ao longo da vida
O relatório destaca a importância dos serviços de saúde sexual e reprodutiva no atendimento às sobreviventes. Mulheres expostas à violência enfrentam maior risco de:
-
gravidezes indesejadas
-
infecções sexualmente transmissíveis
-
depressão e transtornos de saúde mental
A violência muitas vezes começa cedo: 12,5 milhões de adolescentes entre 15 e 19 anos sofreram violência física ou sexual de parceiros íntimos apenas no último ano.
Regiões mais vulneráveis
A violência está presente em todos os países, mas é mais frequente em regiões menos desenvolvidas ou marcadas por conflitos, crises humanitárias e vulnerabilidade climática.
A Oceania (exceto Austrália e Nova Zelândia) apresentou uma das taxas mais altas: 38% das mulheres sofreram violência de parceiro íntimo no último ano — mais que o triplo da média global de 11%.
Países de língua portuguesa
O relatório mostra índices elevados entre os países lusófonos:
Violência de parceiro íntimo ao longo da vida:
-
Timor-Leste: 41,7%
-
Angola: 33,9%
-
São Tomé e Príncipe: 30,4%
-
Moçambique: 24,4%
-
Brasil: 19,3%
-
Cabo Verde: 17,3%
-
Portugal: 9,8%
Violência sexual por não parceiros:
-
Brasil: 6,4%
-
Portugal: 5%
-
São Tomé e Príncipe: 2,9%
-
Angola: 1,5%
-
Moçambique: 2,1%
-
Timor-Leste: 2,1%
Exemplos de avanço
Apesar do cenário desafiador, alguns países mostram que políticas robustas e investimentos podem gerar resultados. O Camboja, por exemplo, desenvolve um plano nacional que inclui revisão de leis, reforço de serviços, expansão de abrigos e ferramentas digitais de prevenção em escolas e comunidades.
Equador, Libéria, Trinidad e Tobago e Uganda também lançaram programas nacionais com financiamento garantido, sinalizando engajamento interno apesar da queda no apoio internacional.
Apelo global por ação imediata
O relatório conclui com um chamado urgente aos governos:
é preciso ampliar programas de prevenção, fortalecer serviços de saúde, assistência social e justiça, investir em dados e monitoramento, e garantir a aplicação efetiva de leis que protejam mulheres e meninas.
A mensagem da ONU é direta: não há mais espaço para silêncio ou inação. O fim da violência contra mulheres e meninas depende de decisões políticas concretas e imediatas.
Fonte: ONU





