Brasileiras dedicam cerca de 40 horas mensais a mais que os homens aos afazeres domésticos e aos cuidados familiares, apontam dados do IBGE
A crescente participação das mulheres no mercado de trabalho não reduziu a desigualdade na divisão das tarefas domésticas e de cuidado. Mesmo ocupando mais espaço em empregos formais, cargos de liderança e no empreendedorismo, elas continuam assumindo a maior parte das responsabilidades dentro de casa, acumulando uma jornada muitas vezes invisível e não remunerada.
A realidade é vivida por milhões de brasileiras, como a empresária sergipana Larissa Lima Barros, de 29 anos. Casada, mãe de duas crianças, funcionária com carteira assinada e proprietária de três empresas, ela também auxilia os pais idosos e relata enfrentar uma rotina marcada pela exaustão.
“São cobranças de todos os lados. Parece que não existe espaço para parar ou descansar”, conta.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres dedicam, em média, quase 40 horas a mais por mês do que os homens aos afazeres domésticos. Ao mesmo tempo, elas estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho. Levantamento dos ministérios do Trabalho e das Mulheres mostra que elas representavam 41,4% dos trabalhadores em empresas privadas com mais de cem funcionários no fim de 2025.
Apesar dos avanços, a desigualdade persiste também na remuneração. O mesmo relatório aponta que as mulheres recebem, em média, 21,3% menos que os homens.
Para especialistas, a sobrecarga feminina é resultado de uma construção histórica que associou às mulheres a responsabilidade pelos cuidados com a família e a manutenção da vida doméstica.
“A mulher foi socialmente preparada para exercer funções de cuidado. Isso não surgiu por acaso, mas faz parte de uma estrutura construída ao longo do tempo”, explica a historiadora e socióloga Rosana Schwartz, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Segundo ela, o que mudou nas últimas décadas foi a visibilidade desse problema. Com mais mulheres ocupando espaços profissionais e de liderança, a dupla jornada passou a ser mais discutida.
“Não é que a sobrecarga tenha começado agora. A diferença é que hoje mais mulheres conseguem nomear esse cansaço e trazer o tema para o debate público”, afirma.
Na prática, a divisão desigual das tarefas ainda faz parte da rotina de muitas famílias. Larissa relata que, além das responsabilidades profissionais, utiliza os fins de semana para organizar a casa, fazer compras, preparar refeições e cuidar dos pais.
A rotina intensa, que frequentemente começa antes das 5h e termina apenas à noite, contribuiu para o desenvolvimento de um quadro de depressão. Mesmo assim, ela afirma sentir culpa por acreditar que poderia fazer mais pelos filhos e pelos familiares.
O trabalho doméstico e de cuidado, embora essencial para o funcionamento da sociedade, continua sem remuneração na maior parte dos casos. Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) estima que, se esse trabalho fosse contabilizado economicamente, representaria pelo menos 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
As desigualdades também se aprofundam quando analisadas sob a perspectiva racial e social. Para a economista Ana Luiza de Holanda Barbosa, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as mulheres negras são as mais impactadas pela sobrecarga.
“Mulheres com maior renda conseguem terceirizar parte dos cuidados domésticos. Em muitos casos, esse trabalho acaba sendo realizado por outras mulheres, geralmente negras e em condições mais vulneráveis”, destaca.
Em busca de enfrentar esse cenário, o Brasil instituiu, em 2024, a Política Nacional de Cuidados. A legislação reconhece a importância do trabalho de cuidado e prevê ações para promover uma divisão mais equilibrada dessas responsabilidades entre homens e mulheres.
No entanto, especialistas avaliam que a efetivação da política depende da implementação de ações concretas por parte dos governos e, principalmente, de uma mudança cultural.
“É necessário romper com a ideia de que cuidar da casa, dos filhos e da família é uma obrigação natural das mulheres. Enquanto essa percepção permanecer, a desigualdade continuará sendo reproduzida”, afirma a psicóloga Monalisa Nascimento dos Santos Barros, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
Para pesquisadores e movimentos sociais, o reconhecimento do trabalho invisível realizado por milhões de brasileiras é um passo fundamental para a construção de relações mais igualitárias dentro e fora de casa.
Fonte: Folha de S. Paulo





