Pesquisa aponta que mulheres, especialmente das classes C, D e E, recorrem às apostas online em meio ao endividamento e às responsabilidades com a família
As apostas online já fazem parte da realidade de mais da metade das mulheres brasileiras, seja pela experiência direta com as chamadas bets, seja pelas consequências do jogo entre familiares e pessoas próximas. Para muitas delas, porém, a relação com as plataformas de apostas está menos ligada à busca por enriquecimento e mais à tentativa de lidar com dificuldades financeiras, pagar contas e atender às necessidades da família.
É o que aponta o relatório “Mulheres e Bets”, realizado pelo estúdio Clarice em parceria com o instituto de pesquisa Ideia. Segundo o levantamento, 42% das mulheres brasileiras afirmam que apostam ou já apostaram. Outras 12% nunca fizeram apostas, mas relatam sofrer impactos provocados pelo comportamento de pessoas próximas.
O estudo também identificou uma diferença entre mães e mulheres sem filhos: as mães apostam cerca de 1,6 vez mais.
Endividamento e pressão financeira
As apostadoras estão concentradas principalmente entre mulheres das classes C, D e E, grupos que enfrentam maiores níveis de vulnerabilidade econômica.
Atualmente, 56% das mulheres brasileiras se declaram endividadas. Entre as classes D e E, o percentual chega a seis em cada dez mulheres.
Nesse cenário, as apostas podem aparecer como uma tentativa de complementar a renda diante de compromissos financeiros que parecem difíceis de cumprir. A pesquisa aponta que, para parte dessas mulheres, o objetivo não é conquistar grandes ganhos, mas encontrar uma solução imediata para despesas do cotidiano.
A responsabilidade historicamente atribuída às mulheres pela administração da casa e pelo cuidado com os filhos também aparece como um elemento importante nessa dinâmica. Entre os motivos relatados estão a tentativa de comprar materiais escolares, proporcionar momentos de lazer aos filhos ou conseguir recursos para despesas básicas.
A promessa de retorno rápido, entretanto, pode transformar a tentativa de solucionar um problema financeiro em uma nova fonte de endividamento.
O ciclo entre cuidado, culpa e apostas
A pressão financeira pode ser acompanhada por um sentimento de culpa. Mulheres que enfrentam dificuldades para garantir o que consideram necessário para os filhos podem enxergar nas apostas uma possibilidade de aliviar a situação.
Quando o resultado esperado não acontece, porém, a frustração pode reforçar a sensação de incapacidade de cumprir as responsabilidades familiares.
O problema também ultrapassa as mulheres que apostam diretamente. O levantamento mostra que 12% das entrevistadas nunca fizeram apostas, mas sofrem os efeitos do jogo praticado por pessoas próximas.
Nesses casos, mulheres podem assumir dívidas contraídas por parceiros ou filhos, além de passar a acompanhar de maneira constante o comportamento do familiar que aposta.
A quebra de confiança também pode afetar os relacionamentos. Como muitas pessoas escondem inicialmente o envolvimento com as apostas, o problema pode ser descoberto apenas depois que as perdas financeiras já se acumularam.
Impactos vão além do dinheiro
Os efeitos das bets não se limitam às perdas financeiras. A expansão das apostas também pode provocar mudanças na dinâmica familiar, afetando vínculos, confiança e responsabilidades dentro de casa.
Mulheres que não apostam podem acabar diretamente envolvidas nas consequências do comportamento de familiares, seja pela necessidade de reorganizar o orçamento, assumir dívidas ou tentar ajudar alguém a interromper o ciclo de apostas.
Dessa forma, o fenômeno também ganha uma dimensão relacionada ao trabalho de cuidado, que ainda recai de maneira desproporcional sobre as mulheres.
Mulheres também demonstram resistência às bets
Apesar da exposição ao fenômeno, as mulheres aparecem entre os grupos que mais demonstram preocupação e rejeição às apostas online.
O levantamento aponta que 49% dos brasileiros já apostaram ou estão apostando, o que mostra a dimensão alcançada pelas plataformas no país.
Para as pesquisadoras responsáveis pelo estudo, a presença das bets no cotidiano das famílias brasileiras faz com que o tema deixe de ser apenas uma questão individual e passe a exigir respostas de políticas públicas.
As mulheres, especialmente aquelas que administram o orçamento familiar, acumulam experiências concretas sobre os impactos das apostas e podem contribuir para a formulação de medidas de prevenção, proteção e atendimento.
Um problema que exige políticas públicas
A pesquisa aponta que compreender a relação das mulheres com as apostas é fundamental para dimensionar os efeitos sociais do fenômeno.
Mais do que analisar apenas quanto dinheiro é perdido nas plataformas, é necessário observar quem está sendo afetado, quais responsabilidades recaem sobre essas pessoas e como o jogo interfere nas relações familiares e na segurança financeira.
No caso das mulheres em situação de maior vulnerabilidade, o desafio é ainda mais complexo: quando a aposta surge como uma tentativa de resolver uma dificuldade econômica, a promessa de dinheiro rápido pode aprofundar justamente o problema que motivou a busca pela plataforma.
O cenário reforça a necessidade de políticas públicas que considerem não apenas a regulação das apostas, mas também educação financeira, prevenção ao endividamento, proteção social e atendimento às pessoas afetadas pelo jogo, direta ou indiretamente.
Fonte: Carta Capital




