Profissionais relatam que contatos iniciados como oportunidades de trabalho evoluem para abordagens invasivas, perseguições e violência de gênero no ambiente digital
O LinkedIn, plataforma voltada ao networking e às oportunidades profissionais, tem sido alvo de denúncias de mulheres que relatam episódios de assédio iniciados por meio de contatos aparentemente relacionados ao trabalho. Segundo os relatos, conversas sobre vagas, parcerias ou processos seletivos passam a incluir insinuações, convites pessoais e mensagens de teor sexual, descaracterizando o ambiente profissional da rede.
Uma das profissionais ouvidas pela reportagem contou que chegou a suspender o atendimento a homens por mais de um ano após sofrer sucessivos episódios de assédio. Em um dos casos, um contato interessado em contratar um serviço de preparação para entrevistas de emprego pediu para continuar a conversa pelo WhatsApp e, durante a troca de mensagens, passou a fazer comentários de cunho sexual.
Outras mulheres relatam experiências semelhantes. Há casos em que simples pedidos de conexão evoluíram para declarações amorosas, convites insistentes para encontros ou mensagens sem qualquer relação com o contexto profissional.
Especialistas avaliam que esse comportamento representa uma forma de violência de gênero no ambiente digital, especialmente por ocorrer em uma plataforma destinada ao desenvolvimento de carreiras e relações profissionais.
Além das abordagens individuais, profissionais que atuam na defesa dos direitos das mulheres afirmam ser alvo frequente de perseguições, comentários ofensivos e ataques coordenados por meio de perfis falsos, numa tentativa de descredibilizar seu trabalho.
Ambiente profissional exige respeito
Para especialistas em prevenção ao assédio, o LinkedIn não é um espaço destinado a interações afetivas ou pessoais. Embora a plataforma disponibilize ferramentas de mensagens privadas, a expectativa é de que esses recursos sejam utilizados exclusivamente para fins profissionais.
Também há críticas quanto aos mecanismos de denúncia disponíveis. Embora o LinkedIn informe que proíbe práticas como assédio, comentários ofensivos, discriminação e divulgação de informações pessoais sem consentimento, usuárias relatam que, após denunciarem perfis responsáveis pelas abordagens, muitas vezes não recebem informações sobre as providências adotadas.
Quando o assédio pode configurar crime
Especialistas em Direito explicam que nem toda abordagem inadequada caracteriza, por si só, um crime. No entanto, a insistência após uma recusa, o envio de mensagens com conteúdo sexual, perseguições ou comportamentos repetitivos podem configurar diferentes infrações, como importunação sexual, perseguição (stalking) e, em determinadas situações, assédio sexual.
Quando o contato ocorre entre colegas de trabalho, clientes, fornecedores ou pessoas ligadas ao ambiente profissional, a conduta também pode gerar responsabilização trabalhista, mesmo sem relação hierárquica entre as partes.
Orientação é preservar provas
Em casos de assédio, a recomendação é que a vítima preserve todas as evidências, como mensagens, capturas de tela, links e histórico das conversas. Também é indicado registrar boletim de ocorrência, denunciar o perfil na plataforma e, quando houver vínculo profissional com o agressor, comunicar formalmente a empresa ou instituição envolvida.
Especialistas ressaltam que as vítimas podem buscar responsabilização nas esferas penal, cível e trabalhista de forma simultânea, conforme as características de cada caso.
O aumento desses relatos evidencia que a violência contra as mulheres também se manifesta em ambientes digitais considerados profissionais, reforçando a necessidade de mecanismos mais eficazes de prevenção, acolhimento e responsabilização.
Fonte: Marie Claire





