Durante a 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, realizada em Brasília, entre 29 de setembro e 1º de outubro, delegadas apresentaram uma moção de apoio às mulheres atingidas pelo colapso das minas de sal-gema em Maceió (AL), causado pela empresa Braskem.
O documento pede reparação integral com perspectiva de gênero, além da criação de políticas públicas específicas de cuidado físico e psicológico para as mulheres afetadas pelo desastre — considerado um dos maiores crimes ambientais em curso no mundo.
“Quem cuida de quem cuida?”
De acordo com a advogada Anne Caroline Fidelis, integrante da delegação alagoana, o colapso que provocou a evacuação de cinco bairros inteiros atingiu diretamente cerca de 60 mil pessoas.
“Estamos atravessando um dos maiores desastres da história da nossa sociedade moderna — e o maior em andamento no planeta. As perdas não são apenas materiais, mas também emocionais e comunitárias”, afirmou em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Ela destaca que o impacto recai de forma desproporcional sobre as mulheres, que acumulam funções de cuidado e enfrentam uma sobrecarga física e emocional.
“Não por acaso, são elas que, em regra, cuidam das demandas domésticas e do acolhimento familiar. Mas quem cuida de quem cuida?”, questiona.
Crime ambiental e saúde mental em colapso
Fidelis lembra que o desastre foi resultado direto da exploração desenfreada de sal-gema pela Braskem.
“Mais do que um desastre, trata-se de um crime ambiental, fruto da intervenção humana e da negligência corporativa — não de um fenômeno natural”, reforça.
Estudos recentes apontam que as consequências ultrapassam a perda das moradias. Um levantamento publicado em 2024 na revista Cadernos de Saúde Pública, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), revelou que mais de 60% dos ex-moradores das áreas atingidas relatam sintomas de ansiedade, depressão ou estresse provocados pela ruptura social e emocional.
O Mapa de Conflitos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) registra ao menos dez casos de suicídio associados à tragédia — números que evidenciam o profundo impacto humano e psicológico do colapso.
Políticas públicas com olhar feminino
A moção aprovada durante a conferência solicita que governos em todas as esferas considerem as demandas específicas das mulheres atingidas nas ações de reparação e reconstrução.
“Pensar políticas para as mulheres é, acima de tudo, pensar políticas para toda a sociedade.
Se quem cuida não é cuidado, todos perdem”, concluiu Fidelis.
Fonte: Brasil de Fato





