Um projeto pioneiro no Rio de Janeiro está mostrando que falar sobre masculinidades pode salvar vidas. Desde dezembro de 2023, cerca de mil homens condenados por violência de gênero passaram a participar de grupos reflexivos dentro da Cadeia Pública Juíza Patrícia Acioli, em São Gonçalo, por meio do Serviço de Educação e Responsabilização do Homem (SerH).
O resultado? Uma taxa de reincidência que despencou de 17% para apenas 1,5%.
Dos 195 participantes que já deixaram o sistema prisional, apenas três voltaram a ser denunciados por novas agressões nos seis meses seguintes.
O dado, segundo o Instituto Mapear — responsável pela execução do projeto —, revela o potencial transformador de encarar o machismo como questão social e não apenas criminal.
Debater para transformar
Os grupos reflexivos são formados por até 35 participantes e acontecem em oito encontros de 50 minutos cada. Ali, os homens debatem temas como masculinidade, poder, violência e responsabilidade.
A proposta é promover uma escuta ativa e estimular que eles reconheçam o impacto de seus atos — e o papel que cada um tem na mudança dessa cultura.
A participação é voluntária e não interfere na pena. Após a libertação, todos os ex-participantes são acompanhados por um ano para monitorar possíveis reincidências.
“São homens que chegam acreditando que estão presos por causa da mulher, e não pelos próprios atos”, explica Luciano Ramos, diretor do Instituto Mapear. “A metodologia do grupo faz com que entendam que cometeram um crime previsto em lei. É um processo de responsabilização e reconstrução.”
Uma experiência inédita no país
De acordo com a secretária estadual da Mulher, Heloisa Aguiar, o SerH é o primeiro projeto, nessa escala, realizado dentro de uma unidade prisional no Brasil.
“Investimos em fazer diferente porque precisamos de resultados diferentes”, afirmou a secretária.
Os resultados apresentados durante o Seminário Nacional sobre Masculinidades e Prevenção às Violências, realizado no Rio de Janeiro, reforçam essa mudança. A pesquisa aplicada antes e depois dos encontros mostra uma transformação significativa na percepção dos participantes.
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O número de homens que reconhecem o sexo forçado como violência passou de 83,4% para 91,6%.
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O entendimento de que esconder dinheiro e documentos é uma forma de violência patrimonial saltou de 34% para 76,5%.
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Já a percepção de que controlar a roupa da companheira é violência psicológica cresceu de 57,1% para 80%.
Repensar masculinidades é também proteger mulheres
O pesquisador Marcos Nascimento, da Fundação Oswaldo Cruz, destacou que os grupos reflexivos são previstos na Lei Maria da Penha como medida de prevenção e reeducação.
“Se os homens são parte do problema, também precisam ser parte da solução”, afirma. “É preciso ressignificar a masculinidade e aprender novas formas de lidar com conflitos. A violência não é algo natural — é uma construção social que pode e deve ser desconstruída.”
O perfil dos participantes
O levantamento mostra que a maioria dos homens tem menos de 34 anos, e quase 40% têm até 23.
Entre eles, 73% se autodeclaram negros, 63,4% são evangélicos e um terço não completou o ensino fundamental.
Também chama atenção o alto índice de dependência química: 64% relataram uso de álcool, 38% de cocaína e 28% de crack.
Quanto aos tipos de crime, 45% foram condenados por violência física, 31% por violência psicológica ou verbal e 20% por descumprimento de medida protetiva.
Fonte: Agência Brasil





