O câncer de mama atinge mulheres de todas as raças, idades e regiões do país. A doença não afeta apenas o corpo, mas também o emocional — trazendo medo, ansiedade e insegurança. Ainda assim, quando o assunto é diagnóstico e tratamento, as mulheres negras continuam enfrentando um caminho muito mais desigual.
Uma pesquisa do Instituto Avon, em parceria com o Observatório de Oncologia, revelou que apenas 24% das mulheres que realizam mamografia são negras, embora elas representem 47% dos casos mais graves da doença.
Esses dados são reforçados por um estudo publicado em abril de 2024, na revista internacional Breast Cancer Research and Treatment, que analisou a incidência e a mortalidade por câncer de mama entre diferentes grupos raciais no Brasil. O levantamento mostrou que, apesar de a doença ser mais diagnosticada entre mulheres brancas, as mulheres negras recebem o diagnóstico em estágio mais avançado (60,1% contra 50,6%) e têm taxa de mortalidade 3,83 vezes maior.
De acordo com a oncologista Ana Amélia de Almeida Viana, especialista em tumores mamários e ginecológicos e coordenadora do Comitê de Diversidade da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o principal motivo por trás dessa disparidade é o racismo estrutural.
“As diferenças raciais levam a um aumento de mortes que não se explicam do ponto de vista da saúde. A única explicação é o racismo. Não é uma questão genética, é uma questão de ausência de cuidados”, afirma a médica ao portal Oncoguia.
Ela ressalta que a maioria das mulheres negras no Brasil depende do Sistema Único de Saúde (SUS), onde o acesso ao rastreamento ainda é limitado.
“Há poucos mamógrafos, concentrados nas áreas centrais das cidades, e a demora para conseguir uma consulta com mastologista é maior. No SUS, apenas 34% dos diagnósticos acontecem por meio do rastreamento — a maioria só descobre a doença após o aparecimento dos sintomas, quando as chances de cura são menores. E vale lembrar: 70% das usuárias do SUS são negras”, explicou a especialista em entrevista ao portal Dráuzio Varella.
Além disso, mesmo após o diagnóstico, muitas pacientes enfrentam a morosidade no início do tratamento — a chamada “lei dos 60 dias”, que garante o começo do tratamento em até dois meses após o diagnóstico, ainda não é totalmente cumprida. A adesão também é dificultada por fatores sociais e econômicos, como o baixo suporte familiar e financeiro.
Caminhos para mudar esse cenário
Para Ana Amélia, políticas públicas mais direcionadas podem ajudar a reduzir as desigualdades raciais no enfrentamento ao câncer de mama. Entre as principais medidas, ela destaca:
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Ampliar o acesso à informação e à oferta de exames de rastreamento;
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Descentralizar os serviços, levando mamógrafos e atendimento especializado às periferias;
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Fortalecer a integração entre a atenção básica e os especialistas;
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Garantir representatividade da população negra nas campanhas de conscientização, abordando com clareza fatores de risco como obesidade, tabagismo e consumo de álcool.
“É preciso promover o letramento racial na saúde — entender como o racismo impacta o adoecimento e o acesso ao cuidado, e combater atitudes racistas dentro das instituições”, reforça a médica.
Situação na Bahia
De acordo com dados da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab), 912 pessoas morreram de câncer de mama na Bahia até 18 de setembro de 2024 — uma média de três mortes por dia. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que o estado deve registrar 4.230 novos casos da doença até o fim deste ano.
Os principais fatores de risco incluem idade avançada, menopausa tardia, histórico familiar, obesidade e dieta rica em gordura. A Sesab alerta ainda para sinais que exigem atenção imediata:
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Alterações no formato natural da mama;
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Retração ou desvio do mamilo;
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Endurecimento ou caroços na mama ou axila;
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Vermelhidão ou descamação ao redor do mamilo;
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Saída de sangue pelo mamilo.
Detectar cedo ainda é o passo mais importante — e garantir que todas as mulheres, inclusive as negras, tenham acesso a esse cuidado, é uma questão de justiça e equidade em saúde.
Fonte: BNews





