Discurso contrário ao sufrágio feminino, antes concentrado em nichos digitais, ganha espaço nas redes sociais e também é reproduzido por influenciadoras
Mais de nove décadas depois de as mulheres conquistarem o direito ao voto no Brasil, discursos que questionam essa participação política têm circulado nas redes sociais. Entre as pessoas que defendem essas ideias estão também mulheres que afirmam estar dispostas a abrir mão do próprio direito de votar.
O fenômeno, antes associado principalmente a comunidades específicas da internet, passou a aparecer com maior frequência em conteúdos de influenciadores e grupos conservadores, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
Uma das brasileiras que se manifestaram sobre o assunto é Fernanda Guardian, empresária do setor de investimentos que vive em Miami e reúne cerca de 300 mil seguidores no Instagram. Em uma publicação mencionada pela BBC News Brasil, ela classificou a instituição do voto feminino como um erro e afirmou que abriria mão de votar.
Outra influenciadora citada na investigação é Pietra Bertolazzi, que possui cerca de 1,3 milhão de seguidores e produz conteúdos relacionados a uma visão tradicional das relações entre homens e mulheres.
Ao ser questionada pela BBC News Brasil sobre sua posição em relação ao voto feminino, Bertolazzi associou sua visão a uma crítica mais ampla à democracia e ao Estado moderno e afirmou defender um modelo monárquico.
Discurso ganha espaço nas redes
As manifestações fazem parte de um ambiente digital mais amplo em que são discutidos os papéis sociais e políticos atribuídos a homens e mulheres. Nesse contexto, ideias relacionadas à submissão feminina, aos modelos tradicionais de família e à participação das mulheres na vida pública aparecem associadas, em alguns conteúdos, ao questionamento do sufrágio feminino.
A circulação dessas mensagens chama atenção também pelo alcance de quem as publica. Diferentemente de discussões restritas a pequenos fóruns ou comunidades virtuais, algumas dessas posições chegam a públicos formados por centenas de milhares ou até milhões de seguidores.
A BBC News Brasil acompanhou durante três meses a circulação desse tipo de conteúdo nas redes sociais e entrevistou influenciadores que aparecem em publicações relacionadas ao tema. A investigação buscou compreender como essas ideias são difundidas, quais argumentos são apresentados por seus defensores e de que maneira o discurso contrário ao voto feminino passou a ocupar espaços do debate digital.
Direito conquistado pelas brasileiras
O voto feminino integra a história da ampliação dos direitos políticos no Brasil. As mulheres conquistaram o direito de participar das eleições nacionais a partir do Código Eleitoral de 1932, marco que incorporou o eleitorado feminino ao sistema eleitoral brasileiro.
Desde então, a participação das mulheres avançou não apenas como eleitoras, mas também por meio da possibilidade de disputar eleições, ocupar cargos públicos e participar diretamente das decisões políticas do país.
O surgimento de discursos que questionam essa conquista histórica coloca novamente o sufrágio feminino no centro de discussões nas redes sociais, desta vez em um ambiente no qual influenciadores conseguem levar debates antes restritos a determinados grupos para audiências significativamente maiores.
Fonte: BBC





