Mesmo sendo guardiãs do território e da floresta, elas ainda enfrentam barreiras nos espaços de decisão global
Na Amazônia, o clima muda, a floresta resiste — e as mulheres seguem na linha de frente. Às vésperas da COP30, que será realizada em Belém (PA), mulheres indígenas, quilombolas e periféricas enfrentam uma batalha dupla: contra os efeitos da crise climática que impactam diretamente seus modos de vida e contra a exclusão histórica dos espaços de poder onde se decide o futuro do planeta.
Mesmo sendo as principais afetadas pelas mudanças do clima e liderando, há séculos, ações de cuidado e preservação do território, elas continuam minoria nas mesas de negociação. Em 28 edições anteriores da Conferência das Partes (COP), apenas cinco mulheres ocuparam a presidência do evento — um retrato claro da desigualdade de gênero que ainda marca a governança global.
Enquanto delegações da União Europeia e de países nórdicos avançam rumo à paridade, outras regiões seguem dominadas por lideranças masculinas. O resultado é um debate ambiental que ainda carrega o peso de vozes silenciadas — justamente aquelas que mais compreendem os ciclos da natureza e as urgências da Amazônia.
“Como discutir o futuro da floresta sem ouvir as mulheres que sempre a mantiveram de pé?”
Essa é a pergunta que ecoa entre ativistas, lideranças e organizações de base que chegam a Belém para a COP30 — trazendo saberes ancestrais, práticas comunitárias e soluções sustentáveis que nascem do território.
A ausência que fala alto
A luta por representatividade também se estende aos Povos Indígenas. De acordo com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a previsão inicial era de que 6 mil indígenas participassem da conferência, mas a crise de hospedagem em Belém reduziu esse número pela metade. Serão 3 mil representantes, segundo a CNN Brasil — reflexo das dificuldades enfrentadas por quem vem de comunidades distantes e depende de apoio logístico para estar presente.
A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, reconhece o desafio, mas reafirma o compromisso de garantir a maior participação indígena da história das COPs.
“Falar em COP na Amazônia sem representatividade indígena é fazer de conta”, afirmou ao O Globo.
“Estamos trabalhando para que haja reconhecimento dos Territórios Indígenas e das florestas como medidas eficazes de mitigação da crise climática.”
Para Sonia, a Amazônia precisa falar por si, e isso só é possível com a presença dos povos que a habitam. Ela defende que o evento seja não apenas um fórum diplomático, mas um marco político que reconheça o papel das comunidades tradicionais como protagonistas da transição ecológica.
Hospedagem ainda é desafio
A falta de estrutura de hospedagem na capital paraense continua sendo uma das principais preocupações da organização. O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, admitiu em entrevista à RFI que os preços, apesar de terem caído, ainda são altos e podem restringir a presença da sociedade civil.
“Isso tem impacto sobre a oferta de apartamentos, num momento em que há enorme interesse de participação de empresas, universidades e organizações sociais. O mundo está olhando para Belém, e não podemos perder essa ocasião”, alertou.
Com a pressão internacional crescendo e a expectativa de milhares de visitantes, o governo federal vem monitorando as obras e adaptações da cidade. Segundo o Metrópoles, o presidente Lula deve visitar Belém nesta semana para acompanhar de perto o andamento das estruturas e inaugurar novas áreas de hospedagem previstas para o evento.
A voz das que sustentam o amanhã
Em meio a disputas políticas, desafios logísticos e negociações multilaterais, há algo que se impõe: o protagonismo das mulheres e dos povos indígenas. São elas e eles que vivem o impacto das secas, das enchentes, do desmatamento e da perda de biodiversidade — e que, ainda assim, continuam recriando formas de existir e resistir.
A COP30, sediada no coração da Amazônia, é mais que um encontro global: é um convite para o mundo ouvir quem sempre soube cuidar da Terra. Porque discutir o clima sem equidade é repetir velhas histórias — e o futuro, esse, precisa de novas vozes.
Fonte: ClimaInfo





