Preocupações com fertilidade, gestação e risco de câncer de mama ainda fazem muitas médicas evitarem áreas da medicina que envolvem exposição à radiação ionizante, como radiologia, radioterapia, ortopedia e cardiologia hemodinâmica.
Apesar de os equipamentos de proteção atuais serem seguros quando usados corretamente, muitas profissionais relatam falta de EPIs adequados, especialmente aventais de chumbo adaptados ao corpo feminino — o que reforça o medo e o desconforto.
“Essa desinformação muitas vezes vem de dentro das próprias faculdades de medicina”, explica Cibele Alves de Carvalho, radiologista e conselheira suplente do Conselho Federal de Medicina (CFM) por Minas Gerais.
Segundo ela, as normas da Anvisa garantem padrões rígidos de segurança, e os aparelhos mais modernos reduzem drasticamente o espalhamento da radiação.
Mesmo assim, os números revelam uma disparidade: embora as mulheres já sejam maioria na medicina, elas representam apenas 39% das radiologistas e radioterapeutas, 8% na ortopedia e 6% na cardiologia hemodinâmica, segundo o CFM.
Entre o medo e o cuidado
A radiologista Gloria Salazar, que trabalhou por 10 anos no departamento de radiologia do Massachusetts General Hospital, ligado à Universidade de Harvard, lembra que a radiação era uma das primeiras perguntas que jovens médicas faziam em entrevistas.
“Me perguntavam: ‘Você tem filhos? Como faz com a radiação?’ Eu fiquei grávida no meu segundo ano e meu filho hoje tem 15 anos, saudável, sem nenhum problema”, contou.
Durante a gestação, Salazar usou dois aventais de chumbo até que o hospital confeccionasse o primeiro avental especial para grávidas, sob medida.
O formato e o peso desses aventais continuam sendo pauta entre médicas da área. Muitas relatam cortes mal ajustados, especialmente na região abaixo da axila — ponto que causa preocupação quanto ao risco de câncer de mama.
Por segurança, algumas acabam comprando EPIs próprios, que custam entre R$ 6 mil e R$ 10 mil.
Ansiedade sobre fertilidade
A ortopedista residente Sarah Lourenço, da Universidade Federal de Goiás, chegou a considerar congelar óvulos antes da residência, temendo o impacto da radiação na qualidade reprodutiva.
“Os capotes dos hospitais públicos muitas vezes não passam por manutenção há anos. Fizemos até um raio-x do capote e ele tinha várias falhas”, contou.
Sarah acabou adquirindo seu próprio equipamento para garantir proteção e segurança.
O que dizem os especialistas
De acordo com o CFM, os riscos dependem da dose e frequência de exposição. Há um limite mensal estabelecido e protocolos rígidos de proteção.
“Se o ambiente segue as normas, é muito difícil haver problemas. Mas qualquer falha deve ser denunciada”, reforça Carvalho.
Estudos mostram que o medo ainda é um dos principais fatores de desigualdade de gênero nessas especialidades.
Uma pesquisa americana de 2024, feita em Minnesota, concluiu que os riscos ao feto são insignificantes quando há uso correto de EPIs.
Já um estudo de 2022, com cirurgiãs ortopédicas nos EUA, apontou um risco quase quatro vezes maior de câncer de mama, embora fatores como gestação tardia e estilo de vida também pesem na estatística.
Em nota, a Anvisa afirmou que o embrião e o feto são mais sensíveis à radiação nas primeiras semanas, mas destacou que as normas brasileiras garantem proteção eficaz, inclusive com medidas adicionais para gestantes.
Um cenário em transformação
Mesmo com os receios persistentes, há avanços. A radiologista Fernanda Uchiyama, do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da USP, afirma que a presença feminina vem crescendo em áreas com radiação.
“De 2021 pra cá, começamos a ter mais dados, mais diálogo e mais segurança. As mulheres estão se informando, se protegendo e desmistificando a ideia de que a radiação é uma sentença”, diz.
Com mais conhecimento e estrutura, médicas de novas gerações vêm reocupando espaços antes dominados por homens — mostrando que o futuro da medicina pode, sim, ser radiante e igualitário.
Fonte: Folha de S. Paulo





