Apesar dos discursos oficiais que apontam redução geral da criminalidade, os dados sobre violência contra a mulher em Sergipe revelam um cenário preocupante. Em 2025, o estado registrou 15 casos de feminicídio, um aumento de 50% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 10 mortes, segundo informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O número representa, em média, mais de um feminicídio por mês ao longo do ano. O crescimento interrompe uma sequência de queda observada nos três anos anteriores e contrasta com a narrativa de avanço na segurança pública estadual.
Desde que o feminicídio passou a ser tipificado como crime hediondo, em 2015, 151 mulheres foram assassinadas em Sergipe por razões de gênero. O ano mais letal foi 2019, com 21 registros. A tipificação define o feminicídio como o homicídio praticado contra a mulher em contextos de violência doméstica, familiar ou motivado por discriminação de gênero.
Embora a legislação tenha avançado na caracterização do crime, os números indicam que a redução das mortes ainda é limitada. Em 2024, mesmo com a queda nos feminicídios, houve aumento de outros tipos de violência. Os registros de crimes contra mulheres em delegacias passaram de 15.794 em 2023 para 16.516 em 2024, enquanto as Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) cresceram 23,5% no mesmo período.
Na prática, os dados apontam o aumento de casos de ameaça, perseguição, descumprimento de medidas protetivas, injúria e violência psicológica. As estatísticas consolidadas desses crimes referentes a 2025 ainda não foram divulgadas.
Prevenção ainda é insuficiente
Especialistas avaliam que o enfrentamento ao feminicídio exige políticas públicas estruturais e preventivas. Para a professora de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Milena Barroso, o problema está diretamente ligado a desigualdades históricas e à ausência de investimentos consistentes.
Segundo ela, é fundamental fortalecer a rede de proteção antes que a violência atinja níveis extremos, com ampliação de orçamento, equipes completas e estrutura adequada nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS). “Não basta criar políticas públicas sem garantir as condições materiais para que elas cheguem às mulheres que precisam”, afirma.
Na mesma linha, a coordenadora do Instituto Ágatha, Valéria de Jesus, defende ações educativas e o fortalecimento da autonomia financeira das mulheres como estratégias centrais de prevenção. A organização atua há mais de uma década no acolhimento de vítimas de violência doméstica e, somente em 2025, alcançou cerca de 300 mulheres por meio de oficinas, cursos e ações de formação.
Segurança pública e resposta institucional
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de Sergipe (SSP/SE) reconheceu o aumento pontual dos feminicídios em 2025 e informou o reforço das estratégias de prevenção, repressão qualificada e orientação às mulheres. De acordo com a delegada Lara Schuster, titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM), sete dos 15 casos ocorreram no mês de dezembro, o que motivou ações emergenciais.
A SSP/SE afirma que todos os casos registrados no ano foram solucionados, com identificação e prisão dos autores. Em janeiro de 2026, a DEAM já cumpriu oito mandados de prisão relacionados ao descumprimento de medidas protetivas.
Um dado considerado crítico pelas autoridades é que apenas duas das 15 vítimas de feminicídio em 2025 haviam solicitado medida protetiva anteriormente, e a maioria não havia registrado boletim de ocorrência antes do crime. Segundo a delegada, a violência doméstica tende a se agravar progressivamente, o que reforça a importância da denúncia precoce.
A Polícia Civil destaca que qualquer pessoa pode denunciar situações de violência contra a mulher, com garantia de sigilo. Entre os canais disponíveis estão a Delegacia Virtual, a Central de Atendimento à Mulher (180), o Disque-Denúncia (181) e o atendimento emergencial pelo 190.
Fonte: Mange Jornalismo





