A coleta e a comercialização de espécies nativas da Amazônia, como o tucumã, têm se consolidado como instrumentos de autonomia econômica, fortalecimento político e enfrentamento à violência contra mulheres na Ilha de Cotijuba, em Belém (PA). A constatação integra uma pesquisa recente publicada na Revista Brasileira de Ciências Sociais.
Coordenado pela Embrapa Amazônia Oriental, o estudo aponta que o extrativismo vai além da geração de renda. As práticas produtivas desenvolvidas por mulheres da região contribuem para a redefinição de papéis sociais, ampliam a participação política e funcionam como espaços de acolhimento em contextos marcados por desigualdades de gênero e violência doméstica.
A pesquisa foi realizada entre 2022 e 2023 e analisou a atuação do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB). Os resultados indicam que o movimento oferece não apenas oportunidades econômicas, mas também proteção social e estímulo à liderança feminina em um território pressionado pela especulação imobiliária e pela expansão do turismo.
Segundo a pesquisadora Dalva Mota, um dos aspectos centrais observados foi o fortalecimento da autonomia pessoal e coletiva das extrativistas. Relatos reunidos no estudo mostram que a participação no MMIB possibilitou a muitas mulheres romper ciclos de submissão e isolamento. Para algumas entrevistadas, o movimento representa um espaço de refúgio diante de conflitos conjugais e da sobrecarga imposta pelo trabalho doméstico exclusivo.
Gestão feminina e fortalecimento político
O levantamento destaca ainda que a coordenação do MMIB é formada exclusivamente por mulheres, garantindo que as decisões estratégicas permaneçam sob liderança feminina. Homens associados podem participar das assembleias, mas não ocupam cargos de direção.
Essa estrutura organizacional contribui para o fortalecimento da autoestima, da qualificação profissional e da autonomia de mulheres cujas trajetórias, em sua maioria, foram marcadas pelo trabalho doméstico precoce e por processos migratórios em busca de melhores condições de vida.
Bioeconomia e resistência territorial
A pesquisa também analisa a inserção das extrativistas em cadeias da bioeconomia amazônica. A parceria comercial com uma empresa brasileira do setor de cosméticos, iniciada em 2002 com o fornecimento de priprioca e posteriormente ampliada para o tucumã, inseriu o grupo em um modelo de “bioeconomia inclusiva”, marcado por tensões entre os valores comunitários e as exigências do mercado.
O tucumã (Astrocaryum vulgare Mart.) se destaca como alternativa econômica sustentável e resiliente às mudanças climáticas. Enquanto o açaí, principal cultura local, foi afetado por períodos de seca e queimadas, o tucumã demonstrou maior resistência ao fogo e às variações ambientais, garantindo estabilidade produtiva às famílias envolvidas.
Além da geração de renda, o extrativismo contribui para a preservação ambiental e para a permanência das comunidades no território. A atividade ajuda a conter os impactos do desmatamento e da especulação imobiliária, que têm reduzido áreas produtivas e pressionado a expulsão de famílias tradicionais da ilha.
Para as autoras Ana Felicien e Dalva Maria da Mota, a experiência do MMIB demonstra que a bioeconomia na Amazônia não pode ser compreendida apenas sob a lógica comercial. Ela envolve relações sociais, proteção ambiental e estratégias de resistência territorial. Para as mulheres de Cotijuba, o extrativismo representa uma forma de garantir a permanência na terra, preservar saberes tradicionais e fortalecer a vida comunitária frente às pressões urbanas e ambientais.
Fonte: Embrapa





