Relatório do Fórum Econômico Mundial mostra que presença feminina diminui conforme aumenta o nível hierárquico; mulheres são 46% nos cargos de entrada, mas apenas 23% no C-level
As mulheres ampliaram sua participação no mercado de trabalho nas últimas décadas, mas esse avanço ainda não se repete na mesma proporção nos postos de maior poder. Quanto mais alta a posição dentro das empresas, menor é a presença feminina.
O cenário aparece no Global Gender Gap Report 2026, do Fórum Econômico Mundial, que acompanha as desigualdades entre homens e mulheres em diferentes países.
Na média global, 69,2% da lacuna de gênero foi fechada, o maior resultado registrado desde o início do levantamento, em 2006. Ainda assim, nenhum dos 145 países analisados alcançou a paridade completa. Se o avanço continuar no ritmo atual, a estimativa é de que serão necessários cerca de 120 anos para eliminar a desigualdade global entre homens e mulheres.
No mercado de trabalho, uma das principais barreiras aparece justamente na progressão profissional.
Dados do LinkedIn analisados pelo Fórum Econômico Mundial mostram que as mulheres representam 46% das pessoas em cargos de entrada. No C-level — grupo que reúne as posições executivas mais altas das empresas —, essa participação cai para 23%.
O fenômeno é chamado pelo relatório de “drop to the top”: à medida que aumenta o poder e a responsabilidade associados ao cargo, diminui a proporção de mulheres.
Avanço na alta liderança perde ritmo
A participação feminina nos postos de alta gestão aumentou ao longo da última década, mas os dados mais recentes indicam uma desaceleração.
Em 2015, as mulheres ocupavam 26,7% dessas posições. O percentual chegou a 29,4% em 2023 e praticamente não avançou desde então.
Nos cargos diretamente ligados ao comando das organizações, a diferença é ainda maior. As mulheres representam 19,1% das pessoas que ocupam posições de CEO e aproximadamente um quarto dos cargos de CFO, responsável pela área financeira, e COO, ligado às operações das empresas.
A tendência também aparece nas novas contratações. A participação feminina entre as pessoas contratadas para posições de alta gestão caiu de 34,8%, em 2022, para 32,3% no primeiro semestre de 2026.
Para Mariana Achutti, CEO da empresa de educação corporativa newnew, a dificuldade não está apenas na entrada das mulheres no mercado, mas nos modelos utilizados pelas organizações para definir quem avança profissionalmente.
Segundo ela, empresas ainda podem reproduzir padrões históricos na escolha de seus principais executivos, mantendo como referência perfis tradicionalmente associados aos homens.
Mulheres ainda se concentram em determinadas áreas
A desigualdade não aparece somente na quantidade de mulheres na alta liderança, mas também nas funções que elas ocupam quando chegam a esse nível.
Elas representam cerca de dois terços das lideranças nas áreas de recursos humanos e gestão de pessoas e pouco menos da metade das posições executivas em marketing.
Em setores ligados à tecnologia, entretanto, a presença diminui significativamente. Mulheres representam menos de um quinto dos CIOs, responsáveis pela área de tecnologia da informação, e apenas 8,6% dos CTOs, executivos responsáveis pela estratégia tecnológica das organizações.
Para Achutti, essa distribuição revela uma segregação de funções dentro da própria liderança. Áreas historicamente associadas ao cuidado, às pessoas e à comunicação apresentam maior participação feminina, enquanto postos ligados diretamente à tecnologia e a outras áreas estratégicas permanecem majoritariamente masculinos.
Essa diferença também interfere em quem participa das decisões capazes de transformar a própria estrutura das organizações.
Desigualdades sociais chegam às empresas
Para Marta Bergamin, doutora em Sociologia e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, as barreiras encontradas pelas mulheres no ambiente corporativo estão relacionadas a desigualdades presentes na própria sociedade.
Na avaliação da pesquisadora, diferenças de gênero, raça e outras formas de desigualdade social também são reproduzidas nas relações profissionais.
Esse processo se torna mais evidente na disputa pelas posições de maior poder, prestígio e remuneração.
A menor presença feminina nesses espaços, segundo Bergamin, não pode ser explicada simplesmente pela falta de qualificação ou competência das profissionais. Estruturas de promoção, redes profissionais e padrões historicamente construídos também influenciam quem consegue chegar aos postos mais altos.
Paridade econômica continua distante
O cenário da liderança faz parte de uma desigualdade econômica mais ampla.
O Global Gender Gap Report acompanha quatro grandes dimensões: participação econômica e oportunidades, educação, saúde e sobrevivência e empoderamento político.
Apesar dos avanços registrados desde o início da série histórica, a participação econômica continua entre as áreas em que as diferenças entre homens e mulheres permanecem significativas.
No ambiente profissional, os números mostram que ampliar a entrada das mulheres não é suficiente quando essa participação diminui ao longo da trajetória até os cargos de decisão.
O desafio, portanto, passa também pelas condições oferecidas para que mulheres avancem na carreira, tenham acesso às diferentes áreas estratégicas das organizações e participem efetivamente dos espaços em que são tomadas as principais decisões.
Fonte: Marie Claire





