Infarto e AVC estão entre as principais causas de morte feminina, mas riscos específicos das mulheres ainda podem ser pouco reconhecidos ao longo da vida
O câncer de mama ocupa espaço importante nas campanhas de prevenção e na preocupação das brasileiras com a própria saúde. Mas outra ameaça exige atenção constante: as doenças cardiovasculares estão entre as principais causas de morte de mulheres no Brasil e no mundo.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte global. Em 2022, foram responsáveis por cerca de 19,8 milhões de óbitos entre homens e mulheres, sendo infarto e acidente vascular cerebral (AVC) responsáveis pela maior parte dessas mortes.
No Brasil, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) aponta que as doenças cardiovasculares respondem por cerca de um terço dos óbitos e destaca a necessidade de ampliar a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado entre as mulheres.
A questão ganha importância porque o risco cardiovascular feminino possui particularidades relacionadas às diferentes fases da vida. Gravidez, menopausa, condições ginecológicas, alterações hormonais e outros fatores podem fazer parte da avaliação da saúde do coração.
Mulheres apresentam fatores de risco específicos
Durante muito tempo, estudos sobre doenças cardiovasculares tiveram menor representação feminina, o que contribuiu para lacunas na compreensão das diferenças entre homens e mulheres na manifestação e evolução dessas condições.
Hoje, as evidências mostram que fatores relacionados ao ciclo de vida feminino precisam ser considerados na prevenção cardiovascular. A própria SBC mantém diretrizes específicas sobre a saúde cardiovascular no climatério e na menopausa e publicou, em 2025, um posicionamento dedicado à saúde cardiometabólica ao longo da vida da mulher.
A cardiologista Larissa Bethania chama atenção para a importância de uma avaliação individualizada. Além dos fatores tradicionalmente associados às doenças cardiovasculares — como hipertensão, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, sedentarismo e obesidade —, a história reprodutiva e hormonal pode trazer informações relevantes sobre o risco de cada paciente.
Condições como hipertensão durante a gestação e pré-eclâmpsia, por exemplo, merecem atenção no acompanhamento cardiovascular posterior. A menopausa também representa um período importante para reavaliar fatores de risco.
Algumas doenças cardiovasculares também aparecem de maneira particular entre mulheres, como a disfunção microvascular coronariana, a dissecção espontânea de artéria coronária e a síndrome de Takotsubo, condição que pode ocorrer após situações de intenso estresse físico ou emocional.
Menopausa é período de maior atenção
O avanço da idade e a chegada da menopausa estão associados a mudanças importantes no risco cardiovascular feminino.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia destaca que a prevalência e a mortalidade por doenças cardiovasculares aumentam após a menopausa. Alterações hormonais e metabólicas que ocorrem nessa etapa fazem com que o acompanhamento da saúde cardiovascular se torne ainda mais relevante.
Isso não significa que os cuidados devam começar apenas nessa fase. A prevenção deve acompanhar a mulher ao longo da vida, considerando histórico familiar, hábitos, condições clínicas e acontecimentos relacionados à saúde reprodutiva.
Estresse também entra na avaliação da saúde
A sobrecarga da rotina pode afetar indiretamente a saúde cardiovascular.
Estresse persistente pode estar associado a alterações no sono e a comportamentos que interferem nos fatores de risco cardiovascular. Por isso, condições emocionais e aspectos da rotina também podem fazer parte da avaliação médica.
Para Larissa Bethania, a prevenção cardiovascular feminina precisa considerar a paciente de maneira integral, levando em conta tanto fatores tradicionais quanto características específicas da saúde da mulher.
Nesse contexto, hábitos como alimentação equilibrada, atividade física regular, não fumar e acompanhamento de condições como hipertensão, diabetes e colesterol elevado continuam entre as principais estratégias de prevenção. A OMS estima que grande parte das doenças cardiovasculares pode ser prevenida por meio do controle de fatores comportamentais e ambientais.
Sintomas também podem ser diferentes
Reconhecer os sinais de um problema cardiovascular é outro ponto de atenção.
Embora a dor ou o desconforto no peito continue sendo um sintoma importante de infarto, mulheres podem apresentar manifestações menos reconhecidas pela população, e as particularidades da apresentação clínica contribuem para desafios no diagnóstico. A SBC chama atenção para a ocorrência de quadros atípicos e para diferenças no diagnóstico e tratamento das doenças cardiovasculares femininas.
Falta de ar, náusea, tontura, cansaço incomum e desconfortos em regiões como costas, pescoço ou mandíbula podem aparecer em alguns quadros cardiovasculares. Esses sintomas, especialmente quando novos, intensos ou associados a outros sinais de alerta, exigem avaliação médica.
Prevenção precisa começar antes dos sintomas
A ausência de sintomas não significa ausência de risco. A prevenção cardiovascular envolve conhecer e acompanhar indicadores como pressão arterial, glicemia e colesterol, além de discutir com profissionais de saúde fatores individuais e histórico familiar.
Para as mulheres, informações sobre gestações anteriores, ocorrência de hipertensão ou outras complicações gestacionais, menopausa e uso de determinados hormônios também podem ser relevantes durante a consulta.
Dados da OMS sobre o Brasil ajudam a dimensionar a importância desse cuidado: em sua estimativa para mulheres brasileiras em 2021, doença isquêmica do coração e AVC apareceram entre as principais causas de morte, com taxas superiores à registrada para o câncer de mama naquele ano.
A atenção à saúde cardiovascular, portanto, não substitui o rastreamento e a prevenção do câncer de mama ou de outras doenças. Os cuidados precisam caminhar juntos. Incorporar o coração à rotina de prevenção feminina permite identificar fatores de risco mais cedo e agir antes que a primeira manifestação de uma doença cardiovascular seja uma emergência.
Fonte: O Globo





