Levantamento mostra que diagnóstico tardio é proporcionalmente mais frequente entre pacientes jovens; considerando todas as idades, cerca de metade dos casos identificados na rede pública em 2025 estava nos estágios 3 ou 4
Sete em cada dez mulheres de 20 a 29 anos diagnosticadas com câncer de mama pelo Sistema Único de Saúde (SUS) descobrem a doença quando ela já está nos estágios 3 ou 4. A proporção diminui conforme aumenta a idade das pacientes, mas o diagnóstico tardio ainda representa um desafio para a assistência oncológica no país.
Os dados fazem parte do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama no SUS, elaborado pelo Observatório de Oncologia, ligado à Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), em parceria com o Instituto Natura.
O estudo analisou informações públicas do Ministério da Saúde sobre exames, diagnósticos, tratamentos e mortes entre 2015 e 2025. Considerando mulheres de todas as idades, 51% dos diagnósticos registrados na rede pública em 2025 ocorreram nas fases 3 e 4 da doença.
O percentual aumentou durante a pandemia de Covid-19 e ainda não retornou aos níveis anteriores.
Diagnóstico avançado é proporcionalmente maior entre as jovens
A diferença entre as faixas etárias chama atenção.
Entre mulheres de 20 a 29 anos, aproximadamente 70% dos diagnósticos aconteceram nos estágios 3 ou 4. Na faixa dos 30 aos 39 anos, foram 62,7%. Entre 40 e 49 anos, o índice chegou a 54,6%.
Já entre mulheres de 50 a 69 anos, faixa historicamente contemplada pelo rastreamento de rotina no SUS, 47,9% dos diagnósticos ocorreram nas fases mais avançadas.
O câncer de mama é menos frequente entre mulheres jovens. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a idade é um dos principais fatores de risco para a doença e cerca de quatro em cada cinco casos ocorrem depois dos 50 anos.
A menor frequência entre jovens, no entanto, também pode contribuir para que sinais suspeitos inicialmente sejam associados a condições benignas.
A mastologista Juliana Francisco, consultora médica do Instituto Natura, explica ainda que mulheres abaixo dos 40 anos apresentam proporcionalmente mais tumores de alto grau, incluindo alguns subtipos que podem apresentar crescimento mais rápido.
Outro fator é a maior densidade mamária comum entre mulheres mais jovens, característica que pode dificultar a identificação de alterações pela mamografia.
Sinais precisam ser investigados independentemente da idade
A ausência de rastreamento de rotina entre mulheres mais jovens não significa que alterações na mama devam esperar até a idade recomendada para exames periódicos.
Nódulos novos e persistentes, retração ou inversão recente do mamilo, secreção sanguinolenta ou transparente, alterações na pele da mama e presença persistente de gânglios endurecidos na axila precisam ser avaliados por um profissional de saúde.
Esses sinais não significam necessariamente a presença de câncer, mas podem exigir investigação.
O mastologista Gilberto Amorim, da Oncologia D’Or e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), chama atenção para o desconhecimento sobre a possibilidade de ocorrência da doença entre pacientes jovens.
A existência ou não de casos de câncer de mama na família também não deve ser utilizada isoladamente para descartar a necessidade de avaliação.
Cobertura da mamografia permanece baixa no SUS
O Panorama também aponta dificuldades no rastreamento das mulheres que já integram a faixa prioritária.
Em 2025, a cobertura da mamografia de rastreamento entre mulheres de 50 a 69 anos atendidas pelo SUS ficou em 22,1%.
Em 2015, o indicador era de 26,8%. Durante a pandemia, caiu para 13,6% em 2020 e, apesar da recuperação posterior, ainda não havia retornado ao patamar anterior em 2025.
As diferenças entre as regiões também são expressivas. Norte e Centro-Oeste apresentaram as menores coberturas, com 10,6% e 13,5%, respectivamente.
Entre os estados, Piauí registrou 32,4%, Bahia, 28,8%, e São Paulo, 28,7%.
Os números consideram os procedimentos realizados pelo SUS e, portanto, não representam necessariamente a cobertura total da população brasileira.
Rastreamento organizado é apontado como alternativa
Atualmente, grande parte do rastreamento brasileiro funciona de maneira oportunística: a mulher chega ao serviço de saúde e, a partir do atendimento, recebe a solicitação para realizar a mamografia.
Especialistas defendem a ampliação de um modelo organizado, no qual o próprio sistema identifica as mulheres que precisam realizar o exame, faz a convocação, disponibiliza as vagas e acompanha os resultados.
A estratégia busca evitar que a realização da mamografia dependa exclusivamente da iniciativa da paciente em procurar o serviço de saúde.
O acesso à mamografia entre mulheres de 40 a 49 anos também está no centro do debate. Entidades médicas defendem o rastreamento anual a partir dos 40 anos, enquanto as políticas públicas estabelecem critérios próprios para o rastreamento populacional e para exames realizados a partir de indicação médica.
Para os especialistas ouvidos no levantamento, ampliar o acesso ao exame precisa ser acompanhado por capacidade suficiente da rede para realizar, interpretar e dar continuidade à investigação dos resultados.
Tratamento ainda começa depois do prazo previsto em lei
O estudo identificou melhora no intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento, mas a espera permanece acima do prazo estabelecido pela legislação.
O tempo médio caiu de 148 dias, em 2015, para 86 dias em 2025, menor intervalo registrado na série analisada.
A Lei nº 12.732/2012 estabelece que pacientes com câncer têm direito ao início do primeiro tratamento no SUS em até 60 dias após o diagnóstico da doença.
Entre 2015 e 2025, aproximadamente 62% das pacientes analisadas começaram o tratamento depois desse período.
O levantamento encontrou ainda uma diferença de acordo com o estágio da doença. Em 2025, mulheres diagnosticadas no estágio 1 esperaram, em média, 101 dias para começar o tratamento. Entre aquelas no estágio 3, foram 76 dias.
Uma possível explicação apontada pelos especialistas é a priorização dos casos considerados mais urgentes. Tumores localmente avançados tendem a receber encaminhamento mais rápido para a oncologia, enquanto casos iniciais podem depender, por exemplo, da disponibilidade para cirurgias.
Diagnóstico precoce muda tratamento e prognóstico
Identificar o câncer de mama nos estágios iniciais aumenta as possibilidades terapêuticas e está associado a melhores resultados.
O tratamento, porém, não depende somente do tamanho do tumor ou do estágio em que a doença foi descoberta. Características moleculares, presença de receptores hormonais, expressão da proteína HER2 e outras particularidades também influenciam a conduta médica.
Em casos mais avançados, o tratamento pode envolver diferentes combinações de quimioterapia, cirurgia, radioterapia e outras terapias.
Além do impacto sobre a saúde das pacientes, diagnósticos tardios podem significar tratamentos mais complexos, períodos maiores de afastamento do trabalho e aumento dos custos para o sistema de saúde.
Brasil estima mais de 78 mil novos casos por ano
O câncer de mama é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras quando desconsiderados os tumores de pele não melanoma.
Para cada ano do triênio de 2026 a 2028, o INCA estima 78.610 novos casos de câncer de mama feminino no país, o equivalente a aproximadamente 30% dos novos casos de câncer previstos entre mulheres.
Diante dos dados, especialistas defendem uma assistência integrada que combine rastreamento, investigação rápida dos sinais suspeitos, diagnóstico oportuno e continuidade do cuidado após a confirmação da doença.
A chamada navegação de pacientes — quando profissionais acompanham a mulher durante as diferentes etapas do atendimento e ajudam a superar barreiras dentro da rede — também é apontada como estratégia para evitar que a paciente precise descobrir sozinha onde e como conseguir o próximo exame, consulta ou tratamento.
Fonte: G1





