A capital paulista vive um início de ano marcado por um cenário grave de violência contra mulheres, com 2025 registrando o maior número de feminicídios desde o início da série histórica.
Na última semana, dois episódios chamaram a atenção pela brutalidade. Em um deles, uma mulher de 31 anos sofreu mutilações graves após ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro. Em outro, uma trabalhadora foi baleada dentro da pastelaria onde atuava. Ambos os casos foram tratados pela Polícia Civil como tentativas de feminicídio, dada a extrema violência e a impossibilidade de reação das vítimas.
Especialistas destacam que o enfrentamento dessa realidade precisa ocorrer em duas frentes: políticas públicas efetivas e mudanças dentro das relações privadas. É fundamental que o Estado reconheça desigualdades estruturais e promova ações afirmativas, incluindo a ampliação de creches e escolas em tempo integral — medidas essenciais para que mulheres possam trabalhar e manter sua autonomia.
No Judiciário, o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero tem sido uma ferramenta relevante ao orientar magistrados a considerar desigualdades históricas nos processos. Ainda assim, há consenso de que apenas a existência de leis não basta: é necessário combater redes de ódio, discursos misóginos e ambientes que naturalizam a violência.
A transformação cultural também é vista como essencial. Isso passa por uma educação que não reproduza machismo, que questione estereótipos e distribua de forma igualitária direitos e responsabilidades dentro das famílias.
A desigualdade histórica entre homens e mulheres ajuda a explicar a persistência da violência. Por séculos, normas sociais colocaram as mulheres em posição de menor poder, e esses padrões ainda influenciam comportamentos atuais. Quando o agressor é alguém próximo, o risco tende a ser subestimado pela vítima e por quem está ao redor.
A Lei Maria da Penha define diferentes formas de violência doméstica: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Muitas vezes, as agressões começam de maneira sutil e pioram com o tempo, alimentadas pela sensação de impunidade e por discursos culturais que minimizam o sofrimento das mulheres.
Recorde preocupante
Entre janeiro e outubro de 2025, foram registrados 53 feminicídios na capital paulista — o maior número da série histórica. Em todo o estado, 207 mulheres foram mortas neste ano pela mesma motivação. Somente em outubro, ocorreram 22 feminicídios e mais de 5 mil casos de lesão corporal dolosa contra mulheres.
O feminicídio é considerado a forma mais extrema da violência de gênero e ocorre quando o assassinato está ligado ao fato de a vítima ser mulher, geralmente relacionado a violência doméstica, sentimento de posse ou depreciação da vida feminina.
Pesquisadoras apontam avanços recentes na investigação dessas mortes, o que diminui a subnotificação. No entanto, o aumento dos números também revela um agravamento das agressões, impulsionado por resistências à ampliação dos direitos das mulheres — inclusive o direito de decidir sobre seus relacionamentos, escolhas pessoais e rumo da própria vida.
Fonte: Agência Brasil





