A brutalidade da violência sofrida por Juliana Soares, de 35 anos, em Natal (RN), escancarou mais uma vez a urgência de combater a cultura do controle e da posse sobre os corpos e vidas das mulheres. Espancada dentro de um elevador por seu então namorado, Juliana levou 61 socos no rosto e na cabeça, agressões tão graves que o médico responsável pela reconstrução facial comparou às lesões de vítimas de acidente de moto sem capacete.
“Foi do décimo sexto até o térreo. Ele me esmurrando sem parar”, relatou Juliana. O caso ocorreu no último dia 26 de julho e foi registrado por câmeras de segurança. O vídeo, que circulou pelas redes sociais e chocou o país, é uma das provas usadas pela polícia para tipificar o crime como tentativa de feminicídio.
Violência que não é exceção
Juliana conheceu o agressor, Igor Eduardo Pereira Cabral, em uma academia onde treinavam diariamente. Naquele dia, o casal foi visto pela manhã aproveitando a piscina do condomínio. Poucas horas depois, a relação se transformou em violência extrema, iniciada por uma crise de ciúmes, segundo as investigações.
Ao perceber que seria agredida, Juliana tomou a decisão consciente de permanecer no elevador para que as câmeras registrassem o que aconteceria. Foi ali, em um espaço confinado e monitorado, que sofreu as agressões. Em depoimento, ela afirmou que o agressor chegou a dizer que “ela iria morrer”.
As imagens são, segundo a delegada do caso, Victória Lisboa, “prova inquestionável da intenção de matar”. Após a agressão, Juliana foi socorrida e encaminhada para o hospital, onde passou por uma cirurgia de reconstrução facial que durou quase sete horas. Ela sofreu múltiplas fraturas no rosto, incluindo na mandíbula, na maçã do rosto e na região do olho direito.
O silêncio precisa acabar
Juliana conseguiu se comunicar com a polícia ainda no hospital. Sem conseguir falar, escreveu em um papel: “Eu sabia que ele ia me bater. Então não saí do elevador. E ele começou a me bater e disse que ia me matar.”
O caso provocou mobilização nacional e reacendeu o debate sobre a violência contra mulheres, especialmente a violência psicológica e física dentro de relações amorosas. A delegada-geral do Estado do Rio Grande do Norte, Ana Cláudia Gomes, classificou o ataque como uma “selvageria” e fez um alerta direto: “Por que o homem ainda se sente dono da mulher?”
Ela também reforçou que 90% dos casos de violência contra a mulher acontecem dentro de casa, longe dos olhos do Estado. Por isso, denunciar é o primeiro passo para romper o ciclo de violência.
Juliana vive, resiste e fala por outras
A vítima, que agora segue em recuperação pelo SUS, quer que seu caso inspire outras mulheres. “Minha vida começou agora”, declarou. Sua advogada afirma que Juliana não quer ser lembrada pela violência, mas pela coragem de romper o silêncio.
Ela também rejeita a ideia de ser definida pela imagem do crime. “Não quero que me lembrem deformada. Quero ser lembrada como alguém que sobreviveu e falou por outras que não conseguem.”
Violência contra a mulher é uma questão política
O caso de Juliana é mais um retrato da urgência de políticas públicas efetivas para proteção e prevenção da violência contra mulheres. A equipe do PV Mulher se solidariza com Juliana e com todas as mulheres vítimas de violência e reafirma seu compromisso com uma política que escute, proteja e represente as mulheres.
Se você ou alguma mulher que você conhece está em situação de violência, procure ajuda.
Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher.
Baixe o aplicativo “Proteja Brasil”.
Procure a Delegacia da Mulher mais próxima.
Nenhuma mulher deve caminhar sozinha. Juntas, somos mais fortes.
Fonte: G1





