Mais da metade das mulheres com menos de 40 anos diagnosticadas com câncer de mama avançado convivem com sérios impactos financeiros. Segundo uma pesquisa internacional inédita, 59% das pacientes relataram dificuldades para manter as contas em dia após o início do tratamento, enquanto 40% acumularam dívidas médicas. O levantamento também revela que grande parte dessas mulheres sustenta filhos pequenos, ampliando a sobrecarga econômica e emocional.
O estudo foi conduzido pelo Projeto 528, iniciativa que estima que cerca de 528 mil mulheres vivem atualmente com câncer de mama avançado em todo o mundo. Ao todo, a pesquisa reuniu 3.800 respostas de pacientes em 67 países, sendo 385 mulheres com menos de 40 anos, grupo que concentrou a análise dos dados.
Os resultados evidenciam que o impacto da doença vai muito além da saúde física. Entre as entrevistadas mais jovens, 52% eram cuidadoras primárias de crianças ou adolescentes, o que agrava os desafios enfrentados durante o tratamento. Após o diagnóstico, seis em cada dez mulheres relataram dificuldades no trabalho, e apenas 20% afirmaram manter estabilidade financeira, índice que antes da doença chegava a 50%.
Além disso, para 36% das participantes, o custo das terapias influenciou diretamente a escolha do tratamento, o que aponta para barreiras econômicas no acesso a cuidados adequados.
Segundo a oncologista Patrícia Taranto, do Hospital Israelita Albert Einstein, o estudo revela desigualdades significativas no enfrentamento da doença entre mulheres jovens. “Com o aumento do diagnóstico de câncer de mama nessa faixa etária, observamos disparidades importantes que afetam desde o acesso ao diagnóstico precoce até a continuidade do tratamento”, avalia.
Doença mais agressiva e desigualdade no acesso
Embora representem uma parcela menor do total de pacientes oncológicas, mulheres jovens tendem a enfrentar tumores biologicamente mais agressivos. “Nesse grupo, há maior incidência de câncer de mama triplo negativo e de casos associados à predisposição hereditária, o que limita opções terapêuticas e torna o tratamento mais complexo”, explica Taranto.
O peso financeiro aparece como um dos principais fatores de desigualdade. De acordo com a médica, os avanços no tratamento aumentaram a sobrevida das pacientes, mas também elevaram significativamente os custos das terapias. “A chamada toxicidade financeira pode comprometer de forma grave a jornada da paciente, dificultando o acesso aos tratamentos mais eficazes”, afirma.
A pesquisa aponta ainda que 40% das mulheres adiaram a busca por atendimento especializado, mesmo após o surgimento de sintomas. Muitas relataram falta de informação adequada ou negligência na atenção primária. Apenas 14% receberam diagnóstico por meio de exames de rotina, enquanto 85% descobriram a doença a partir da percepção de sintomas, geralmente em fases mais avançadas. Mais da metade das participantes (52%) foi diagnosticada já no estágio 4.
Limitações em exames e opções terapêuticas
O acesso desigual a exames especializados também foi identificado. Embora 90% das entrevistadas tenham realizado testes genéticos para mutações hereditárias, apenas 59% tiveram acesso a testes genômicos do tumor, fundamentais para direcionar tratamentos personalizados. Como resultado, somente 46% das pacientes receberam mais de uma opção terapêutica.
Impactos na saúde mental, sexualidade e fertilidade
Os efeitos psicológicos da doença foram relatados por cerca de 80% das participantes. Alterações na imagem corporal, medo da infertilidade e mudanças na vida sexual estiveram entre as principais queixas. Apenas 4% afirmaram não ter enfrentado dificuldades nesse campo.
“A indução de menopausa precoce, comum em alguns tratamentos, pode causar impactos relevantes na libido e na vida afetiva. Esses aspectos precisam ser considerados no cuidado integral da paciente”, destaca Patrícia Taranto.
A preservação da fertilidade também se mostrou um ponto crítico. Apenas 13% das mulheres afirmaram ter recebido orientação sobre procedimentos prévios para preservação reprodutiva, como congelamento de óvulos ou embriões. Segundo a oncologista, esse diálogo deve ocorrer antes do início da quimioterapia, respeitando os desejos e planos de vida da paciente.
Importância das redes de apoio
O estudo também analisou o papel das redes de apoio. Comunidades online de mulheres com câncer de mama avançado foram apontadas como fundamentais para o enfrentamento da doença, mas apenas 43% das pacientes receberam indicação para participar desses espaços.
“O cuidado com a saúde mental deve integrar o tratamento multidisciplinar. O apoio psicológico e o contato com outras mulheres que vivem experiências semelhantes ajudam a reduzir o sofrimento emocional e fortalecem a paciente durante o tratamento”, conclui Taranto.
Fonte: Veja Saúde





