Candidatas com discursos contrários ao feminismo conquistam votações expressivas em 2026 e ampliam o debate sobre representação política e direitos das mulheres
As eleições de 2026 registraram um avanço da presença feminina nos espaços de poder, mas também evidenciaram o crescimento de lideranças que fazem da oposição ao feminismo uma de suas principais bandeiras políticas.
Enquanto o Senado elegeu 12 mulheres para as 54 vagas em disputa, o maior número em uma única eleição desde a redemocratização, candidatas conservadoras conquistaram votações expressivas nas disputas legislativas.
Entre os destaques está Eduarda Campopiano, de 23 anos, eleita deputada estadual mais votada de São Paulo, com 1.956.238 votos. Conhecida por se apresentar publicamente como adversária do feminismo, a parlamentar construiu parte de sua trajetória nas redes sociais antes de conquistar espaço na política institucional.
Em Santa Catarina, a deputada federal Julia Zanatta foi reeleita com 560.223 votos, consolidando sua presença entre as principais lideranças conservadoras do estado.
Os resultados mostram como discursos relacionados a gênero, família, direitos reprodutivos e valores tradicionais passaram a ocupar espaço importante na mobilização eleitoral.
Das redes sociais aos espaços de poder
A trajetória de Eduarda Campopiano exemplifica a crescente relação entre influência digital e participação política.
A parlamentar começou a produzir conteúdos políticos ainda jovem e ganhou visibilidade ao participar de debates públicos e programas de comunicação. Em 2024, foi eleita vereadora de Praia Grande, no litoral paulista, antes de conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa nas eleições de 2026.
Sua atuação nas plataformas digitais foi marcada por críticas ao feminismo e posicionamentos conservadores sobre temas como aborto, cotas raciais e criminalização da misoginia.
O desempenho eleitoral também revela uma mudança na maneira como lideranças políticas conseguem construir reconhecimento público.
Redes sociais passaram a funcionar não apenas como instrumentos de divulgação de campanhas, mas também como espaços de formação de identidade política, mobilização de seguidores e aproximação com o eleitorado.
Nesse ambiente, posicionamentos sobre temas sociais podem se transformar em elementos centrais da imagem pública de uma candidatura.
Mulheres conservadoras ampliam influência eleitoral
O crescimento dessas lideranças não se restringiu às assembleias legislativas e à Câmara dos Deputados.
No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis foram eleitas para o Senado. A partir de 2027, as duas passarão a integrar a representação da unidade federativa ao lado de Damares Alves, cujo mandato continua até 2031.
O resultado fará do Distrito Federal a primeira unidade federativa com três mulheres ocupando simultaneamente suas três cadeiras no Senado.
Em outros estados, nomes como Caroline de Toni, Ana Campagnolo e Chris Tonietto também se destacaram por sua atuação em pautas conservadoras.
Embora apresentem diferenças de trajetória e posicionamento, essas lideranças compartilham críticas a determinadas reivindicações feministas e defendem propostas associadas a valores tradicionais, especialmente em questões familiares e reprodutivas.
A presença de mulheres à frente dessas pautas também demonstra que as disputas em torno dos direitos femininos não ocorrem apenas entre homens e mulheres, mas envolvem diferentes concepções sobre igualdade, autonomia e organização social.
Direitos das mulheres entram na disputa política
Uma das principais características do antifeminismo contemporâneo é a contestação de ideias e propostas associadas aos movimentos feministas.
No Legislativo, essas divergências aparecem em debates sobre aborto, violência de gênero, políticas de igualdade e mecanismos de proteção às mulheres.
Eduarda Campopiano, por exemplo, já manifestou oposição à proposta de criminalização da misoginia e questionou aspectos da legislação relacionada ao feminicídio.
Outras parlamentares conservadoras também atuam em debates sobre direitos reprodutivos e limites da intervenção do Estado nas relações familiares.
É importante distinguir, entretanto, a oposição a propostas legislativas específicas da revogação efetiva de direitos. Para que uma mudança legal aconteça, são necessárias etapas de tramitação, aprovação e, conforme o caso, sanção ou análise de constitucionalidade.
Ainda assim, o posicionamento de representantes eleitas influencia a definição das prioridades legislativas, a discussão de novas normas e o encaminhamento de políticas públicas.
Representatividade feminina não significa consenso
O crescimento da participação das mulheres na política brasileira representa uma mudança importante em instituições historicamente ocupadas majoritariamente por homens.
A ampliação dessa presença, no entanto, não significa que todas as parlamentares compartilhem as mesmas prioridades ou interpretações sobre os direitos femininos.
Mulheres possuem diferentes experiências sociais, crenças religiosas, orientações políticas e perspectivas sobre o papel do Estado.
Nesse contexto, a eleição de representantes conservadoras evidencia a diversidade de posicionamentos existentes entre o próprio eleitorado feminino.
Ao mesmo tempo, a discussão sobre representatividade também envolve a atuação concreta das parlamentares: quais propostas apresentam, como votam e quais políticas defendem durante seus mandatos.
Participação política é resultado de mudanças históricas
A presença de mulheres no Congresso e nas assembleias legislativas está relacionada a um processo de ampliação de direitos construído ao longo de décadas.
O reconhecimento do voto feminino em 1932, a expansão do acesso à educação, as mudanças na legislação civil e a criação de mecanismos de incentivo à participação eleitoral contribuíram para ampliar a presença feminina na vida pública.
Os movimentos feministas participaram de diferentes etapas desse processo, embora não tenham sido os únicos atores envolvidos nas transformações sociais e legislativas.
Hoje, mulheres com posições políticas diversas ocupam espaços que, durante grande parte da história brasileira, foram predominantemente masculinos.
Essa diversidade também coloca em discussão o significado da representação feminina: se ela deve ser avaliada apenas pela quantidade de mulheres eleitas ou também pelo impacto de sua atuação sobre as condições de vida da população feminina.
Desafio vai além do número de eleitas
Apesar dos avanços nas eleições de 2026, as mulheres continuam sub-representadas no Congresso Nacional em comparação com sua participação na população brasileira.
No Senado, as 12 eleitas devem elevar a bancada feminina para 18 integrantes em 2027, o equivalente a 22,2% das 81 cadeiras, caso a composição projetada se confirme.
O crescimento da presença feminina também amplia a pluralidade de posições sobre temas como violência doméstica, direitos reprodutivos, autonomia econômica, maternidade e divisão do trabalho de cuidado.
O desempenho de candidaturas antifeministas demonstra que essas questões permanecem no centro das disputas políticas e eleitorais.
Mais do que ampliar o número de mulheres nos espaços de poder, o cenário evidencia a importância de acompanhar como as diferentes representantes atuam na formulação, manutenção e transformação das políticas que afetam a vida das brasileiras.
Fonte: Intercept





