Elas representam mais da metade das pessoas aptas a votar no país; participação política, enfrentamento à violência, cuidado, autonomia econômica e mudanças climáticas estão entre os temas que atravessam a realidade feminina
As mulheres são maioria entre as pessoas aptas a votar no Brasil e chegam às Eleições 2026 em posição numericamente relevante na composição do eleitorado. Na reta final da campanha, candidaturas buscam dialogar com esse público enquanto temas relacionados à segurança, renda, trabalho, cuidado e representação política ganham espaço no debate eleitoral.
A participação feminina nas urnas, entretanto, ainda contrasta com a presença das mulheres nos espaços de poder. Embora representem mais da metade do eleitorado, elas continuam sub-representadas nos cargos eletivos e nas estruturas de decisão política.
Nesse contexto, a ONU Mulheres apresentou o documento “10 Propostas pela vida das mulheres”, direcionado a candidaturas, partidos, instituições públicas e à sociedade. A iniciativa reúne medidas relacionadas à participação política, violência de gênero e raça, políticas de cuidado, trabalho, renda e mudanças climáticas.
Para Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil, além das propostas apresentadas durante a campanha, é necessário observar se os compromissos são acompanhados de instrumentos capazes de transformá-los em políticas públicas.
Recursos e execução das políticas para mulheres
Um dos pontos destacados pela ONU Mulheres é o financiamento das políticas públicas.
Programas de enfrentamento à violência, estruturas de cuidado e iniciativas de promoção da autonomia econômica dependem não apenas da previsão de recursos, mas também de continuidade e execução.
O Brasil já incorporou uma agenda transversal para as mulheres ao planejamento plurianual do governo federal. Ainda assim, políticas relacionadas à igualdade de gênero estão distribuídas por diferentes áreas da administração pública e pelos governos federal, estaduais e municipais, o que torna mais complexo acompanhar quanto é destinado e efetivamente aplicado.
A proposta defendida pela organização é avançar em mecanismos que permitam identificar e tornar públicos esses recursos.
Serviços como creches, casas de acolhimento e equipamentos de atendimento às mulheres em situação de violência, por exemplo, dependem de financiamento contínuo para manter suas atividades.
Prevenção da violência contra as mulheres
O enfrentamento à violência de gênero é outro eixo apresentado no documento. A proposta é ampliar o investimento em prevenção sem deixar de fortalecer as respostas destinadas às mulheres que já estão em situação de risco.
Entre as medidas apontadas estão maior rapidez na concessão de medidas protetivas, monitoramento do descumprimento das decisões e articulação entre forças de segurança, Justiça e rede de atendimento.
A ONU Mulheres também chama atenção para as desigualdades raciais presentes nesse cenário. Mulheres negras, indígenas e pertencentes a outros grupos podem enfrentar barreiras adicionais, o que exige que raça e gênero sejam considerados conjuntamente na formulação das políticas.
A ampliação dos serviços especializados aparece como outro desafio. Nem todos os municípios brasileiros possuem estruturas específicas para atender mulheres vítimas de violência.
Por isso, além da expansão da rede especializada, serviços já existentes nos territórios — como unidades básicas de saúde, Cras, Creas, escolas e delegacias — podem exercer papel importante na identificação das situações de violência, no acolhimento e no encaminhamento das vítimas.
Trabalho de cuidado ainda recai principalmente sobre as mulheres
O documento também coloca no debate a distribuição do trabalho doméstico e de cuidado.
As brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e aos cuidados de outras pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Entre mulheres pretas e pardas, a sobrecarga é ainda maior.
Essa diferença interfere no tempo disponível para trabalho remunerado, qualificação profissional, descanso e participação na vida pública.
O Brasil já possui uma Política Nacional de Cuidados. Para a ONU Mulheres, o desafio agora envolve sua implementação, com recursos contínuos e serviços capazes de responder à rotina real das famílias.
Isso inclui, por exemplo, discutir não apenas a disponibilidade de creches, mas também seus horários de funcionamento e a compatibilidade com a jornada profissional de mães e responsáveis.
Machismo também entra no debate público
Outro ponto apresentado pela ONU Mulheres é a necessidade de tratar o machismo não apenas como uma questão das relações individuais, mas como um problema que também exige respostas coletivas.
A preocupação ganha espaço diante da circulação de conteúdos digitais relacionados à chamada “machosfera”, termo utilizado para identificar diferentes comunidades on-line nas quais podem circular discursos sobre papéis rígidos de gênero, masculinidade e, em alguns casos, conteúdos misóginos.
Pesquisa da Ipsos em parceria com o Global Institute for Women’s Leadership, do King’s College London, identificou diferenças geracionais nas percepções sobre igualdade entre homens e mulheres. Entre os resultados apresentados pelo levantamento está a parcela de jovens que concorda com a ideia de que uma esposa deve obedecer ao marido.
Palayret chama atenção para a forma como conteúdos relacionados a estereótipos de gênero podem chegar ao público jovem. Segundo ela, nem sempre essas mensagens aparecem inicialmente de maneira explícita e podem estar associadas, em um primeiro momento, a temas como motivação, sucesso e autoajuda.
Para enfrentar esse cenário, a representante da ONU Mulheres defende ações permanentes de transformação das normas sociais, envolvendo escolas, famílias, meios de comunicação, plataformas digitais e também homens e meninos.
A ONU Mulheres e o Unicef também desenvolveram materiais destinados a auxiliar famílias na construção de conversas sobre gênero e estereótipos com crianças e adolescentes.
Mulheres também precisam estar no centro da agenda climática
As mudanças climáticas aparecem entre as prioridades apresentadas pela organização.
Os impactos da crise climática não atingem todas as populações da mesma maneira. Projeções internacionais indicam que mulheres e meninas, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade, podem enfrentar efeitos econômicos e sociais desproporcionais à medida que eventos climáticos extremos se intensificam.
Entre as questões destacadas estão o acesso à terra, a segurança alimentar, a proteção dos territórios e a participação feminina nas decisões relacionadas ao clima.
Para a ONU Mulheres, gênero e raça devem ser considerados desde a elaboração das políticas climáticas até a definição do orçamento e a avaliação de seus resultados.
Outro ponto é garantir que os recursos destinados ao enfrentamento da crise climática também alcancem organizações e comunidades que atuam diretamente nos territórios.
Grupos liderados por mulheres participam de iniciativas relacionadas à preservação ambiental, produção de alimentos e adaptação às mudanças climáticas, mas ainda podem enfrentar dificuldades para acessar financiamento.
Participação política ainda enfrenta obstáculos
A presença feminina nas eleições também envolve as condições oferecidas às próprias candidatas.
Apesar do crescimento das candidaturas de mulheres ao longo dos últimos anos, essa evolução ainda não se converteu em representação equivalente nos espaços legislativos.
Entre os obstáculos apontados estão desigualdades no financiamento eleitoral, baixa presença feminina nas direções partidárias e violência política de gênero e raça.
A ONU Mulheres propõe maior fiscalização das regras destinadas à participação feminina, transparência na distribuição dos recursos eleitorais e medidas para ampliar a presença das mulheres nas estruturas de decisão.
Também defende o fortalecimento das ações de prevenção e enfrentamento à violência política contra as mulheres, inclusive no ambiente digital.
As dez propostas apresentadas pela organização não esgotam os desafios relacionados à igualdade de gênero no país. Elas estabelecem prioridades que podem servir de referência para acompanhar compromissos apresentados durante a campanha e, posteriormente, a execução das políticas públicas.
Com as mulheres formando a maioria do eleitorado brasileiro, as Eleições 2026 também colocam em discussão quanto as demandas dessa parcela da população aparecem nas propostas de quem disputa os cargos públicos — e de que maneira esses compromissos poderão ser acompanhados depois das urnas.
Fonte: Veja





