Série especial da Rádio Senado aborda os efeitos do contato recorrente com casos de violência extrema sobre jornalistas, policiais, pesquisadoras e profissionais do sistema de Justiça
O trabalho de enfrentamento ao feminicídio não termina na investigação de um crime. Para mulheres que lidam diariamente com esses casos, a exposição recorrente a relatos, imagens e histórias de violência pode ultrapassar o ambiente profissional e produzir impactos na vida pessoal, nos relacionamentos, na sensação de segurança e na saúde mental.
Essa é a discussão apresentada pela reportagem especial “Era uma de nós: desafios de mulheres que trabalham com casos de feminicídio”, produzida pelo jornalista Rodrigo Resende para a Rádio Senado.
Dividida em cinco episódios, a série reúne experiências de profissionais de diferentes áreas que atuam direta ou indiretamente com casos de feminicídio, entre elas policiais, jornalistas, integrantes do sistema de Justiça e pesquisadoras.
Além dos desafios enfrentados durante o exercício profissional, a produção mostra como a proximidade constante com histórias de violência contra mulheres pode alterar a forma como essas trabalhadoras percebem situações da própria rotina.
Quando a história da vítima também provoca identificação
Um dos aspectos abordados pela série é a identificação que pode surgir entre as profissionais e as vítimas.
Ao tratar de um crime envolvendo uma colega de profissão, a jornalista Clara Farias sintetiza esse sentimento ao afirmar: “Uma jornalista, era uma de nós”.
A frase também ajuda a explicar o título da produção. Casos envolvendo mulheres com idades, profissões, histórias ou circunstâncias próximas às de quem trabalha na cobertura ou investigação podem provocar uma percepção ainda maior de proximidade com a violência.
A reportagem discute ainda o chamado trauma vicário, relacionado aos impactos emocionais que podem surgir a partir do contato contínuo com experiências traumáticas vividas por outras pessoas.
Embora essas profissionais não sejam necessariamente vítimas diretas da violência relatada, ouvir depoimentos, acompanhar investigações, analisar processos ou cobrir crimes de forma recorrente pode gerar desgaste emocional e influenciar a maneira como percebem o mundo ao redor.
Cuidado também precisa alcançar quem trabalha com a violência
A série amplia a discussão para além das experiências individuais e aborda a responsabilidade das instituições na proteção das equipes que trabalham diretamente com situações de violência extrema.
Entre os temas estão mecanismos de defesa emocional, prevenção, educação, políticas públicas e estratégias de acolhimento aos profissionais expostos continuamente a conteúdos traumáticos.
A psicóloga Júlia Zamora, ouvida pela reportagem, resume essa perspectiva ao afirmar que “saúde mental é um pacto coletivo”.
A abordagem chama atenção para a necessidade de não tratar os impactos emocionais desse tipo de trabalho exclusivamente como uma responsabilidade individual. Ambientes profissionais, protocolos institucionais e redes de apoio também podem exercer papel importante na prevenção e no cuidado.
Ao longo dos cinco episódios, “Era uma de nós” propõe um olhar para uma dimensão menos visível do enfrentamento ao feminicídio: as marcas deixadas também em quem investiga, noticia, pesquisa e trabalha para que esses crimes sejam reconhecidos, responsabilizados e prevenidos.
Fonte: Agência Senado





