A aproximação das eleições de 2026 reacende um debate central para a democracia brasileira: as condições reais de participação das mulheres na disputa política. Apesar dos avanços institucionais, o cenário permanece marcado por desigualdades estruturais que se intensificam com o uso crescente das tecnologias digitais.
A violência política de gênero, já presente nos espaços físicos e institucionais, passa a operar também em escala digital, com maior alcance, velocidade e sofisticação. O uso de imagens falsas, montagens, conteúdos manipulados e discursos misóginos disseminados nas redes sociais tem sido direcionado de forma desproporcional às mulheres candidatas, com o objetivo de deslegitimar trajetórias, abalar reputações e produzir silenciamento.
As plataformas digitais se consolidaram como ferramentas centrais da comunicação política. O aumento do consumo de vídeos e conteúdos audiovisuais alterou profundamente a forma de circulação da informação e ampliou o impacto de práticas violentas. Ataques que antes circulavam de forma restrita agora ganham aparência de verdade, tornando-se mais difíceis de contestar e corrigir.
Estudos recentes apontam que esse tipo de violência não ocorre de maneira aleatória. Mulheres candidatas são alvos preferenciais de campanhas baseadas em desinformação visual, sexualização e manipulação de imagens. Trata-se de uma estratégia recorrente, que se beneficia do baixo custo de produção dos ataques e da dificuldade de responsabilização de seus autores.
Pesquisas internacionais indicam que as próprias tecnologias contribuem para esse cenário. Um estudo realizado em 2024 pelo Berkeley Haas Center for Equity, Gender and Leadership analisou 133 sistemas de inteligência artificial e identificou que quase metade apresentava algum tipo de viés de gênero. Esses dados ajudam a compreender como sistemas automatizados podem reproduzir e intensificar desigualdades já existentes na sociedade.
No Brasil, análises do pleito municipal de 2024 realizadas pelo Observatório de IA nas Eleições, iniciativa da Data Privacy Brasil, evidenciaram o uso de inteligência artificial generativa com fins claramente violentos. As mulheres foram as principais vítimas de conteúdos falsos e manipulados, o que contribuiu para o agravamento da violência política de gênero durante o processo eleitoral.
Paralelamente, o país avança no debate sobre a regulação da inteligência artificial, discutindo marcos legais, princípios de governança e classificações de risco. No entanto, persistem desafios fundamentais: a proteção das mulheres na política ainda não ocupa lugar central nessas discussões. É preciso questionar quem participa da formulação dessas normas, quais experiências são consideradas e quais formas de violência continuam sendo naturalizadas no debate público.
Outro elemento estrutural merece atenção: a desigualdade de gênero no próprio setor de tecnologia. No Brasil, a área de inteligência artificial permanece majoritariamente masculina, inclusive nos espaços de decisão. Estudos recentes colocam o país entre os piores do mundo em termos de equilíbrio de gênero na concentração de profissionais de IA. Essa exclusão impacta diretamente o desenho das tecnologias, que acabam refletindo visões de mundo limitadas e pouco diversas.
Reconhecer esses problemas não significa negar o potencial transformador da tecnologia. Ferramentas digitais e sistemas baseados em inteligência artificial podem ser aliados no monitoramento de discursos de ódio, na identificação de padrões de violência e no fortalecimento da transparência democrática. Experiências conduzidas por iniciativas feministas mostram que é possível disputar esse campo, desde que haja intencionalidade política, compromisso ético e participação social.
Fonte: Poder360





