Relatos de mulheres negras expõem cesáreas forçadas, negligência e mortes evitáveis. A dor delas não é exagero — é resultado de desigualdades estruturais que ainda marcam o atendimento em saúde no Brasil.
Quando Ângela Santos, 50 anos, quilombola da comunidade Pau de Leite, em Pernambuco, relembra seu parto, a frase que ecoa é simples e contundente: “Eu sabia que era violência, mas ninguém me ouvia.”
Há 23 anos, ela foi submetida a uma cesárea sem explicação adequada. O procedimento resultou em um parto traumático — e em complicações graves. “O médico decidiu pela cesárea, e meu filho nasceu com problemas respiratórios. Não houve preparo algum”, relata. Após o parto, Ângela ainda sofreu com um erro que poderia ter sido fatal: uma compressa cirúrgica foi esquecida dentro de seu corpo.
Consentimento violado
Segundo a advogada Andreza Santana, especialista em violência obstétrica e racismo obstétrico, casos como o de Ângela são comuns. “Muitas mulheres negras são submetidas a intervenções sem esclarecimento nem autorização. A autonomia delas é completamente anulada”, afirma.
Andreza destaca que o consentimento livre e informado é um direito — e envolve conhecer riscos, opções e justificativas antes de qualquer decisão.
Violência que começa no pré-natal
Day Soeiro, 35 anos, do Oiapoque (AP), também viveu situações de violência obstétrica. Ainda no pré-natal, ouviu de uma médica que era “velha demais” para ser mãe — aos 21 anos. No parto, enfrentou maus-tratos, pressão física e comentários humilhantes.
Ela também teve sua autonomia negada ao tentar realizar uma laqueadura. Embora a legislação atual (Lei 14.443/2022) permita o procedimento sem consentimento do cônjuge, à época seu pedido foi barrado porque o marido não estava presente e se opunha.
Mesmo antes da mudança na lei, explica Andreza, impedir a laqueadura já configurava violação de direitos reprodutivos.
“Meu filho não voltou do jeito que eu queria”
A violência também atravessa o atendimento pediátrico. Janaínis de Almeida, 26 anos, também do Amapá, perdeu o filho de 1 ano e 5 meses após sucessivas falhas no atendimento. O menino sentia fortes dores abdominais, mas demorou a receber avaliação adequada e o encaminhamento correto. Quando chegou a Macapá, era tarde demais: ele morreu após complicações que poderiam ter sido evitadas.
O caso dela reflete um cenário mais amplo. Em 2023, o Amapá registrou uma das maiores taxas de mortalidade infantil do país: 20,9 por mil nascidos vivos — número acima da média nacional.
Racismo obstétrico: conceito e práticas
O termo racismo obstétrico, formulado pela antropóloga Dána-Ain Davis em 2018, descreve como o racismo afeta o atendimento a gestantes e puérperas negras.
A crença de que mulheres negras “aguentam mais dor” é herança direta do período escravocrata — e segue influenciando condutas médicas. Essa lógica, explica a pesquisadora Emanuelle Góes, legitima a negligência e a desatenção:
“Quando a dor das mulheres negras é tratada como algo normal ou exagerado, o serviço de saúde as desumaniza.”
Andreza observa que, entre mulheres brancas, o padrão mais comum é o excesso de intervenções desnecessárias; entre mulheres negras, a marca é a negligência: dor ignorada, ausência de anestesia, falta de acompanhamento.
A enfermeira obstetra e doula Danny Silva confirma o padrão: mulheres negras são menos escutadas e recebem menos atenção.
Números que revelam desigualdades
A pesquisa Nascer no Brasil II, realizada pelo Ministério da Saúde e pela Fiocruz, mostra que a mortalidade materna é mais que o dobro entre mulheres negras em comparação a mulheres brancas. Os óbitos se concentram em mulheres com mais de 35 anos, em situação de vulnerabilidade e usuárias do sistema público nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste.
Ferramentas para identificar a violência
Em 2023, o coletivo Mulheres Negras Decidem e o MP Mulheres lançaram o Pequeno Manual de Racismo Obstétrico. O documento apresenta sinais de alerta como:
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não medir pressão durante consultas;
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impedir ou desencorajar acompanhante (o que é ilegal, segundo a Lei 11.108/2005);
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negar anestesia;
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desqualificar relatos de dor;
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realizar procedimentos sem explicação.
No mesmo ano, o Ministério da Saúde instituiu a Estratégia Antirracista para a Saúde. O objetivo é reduzir desigualdades, mas sua implementação ainda é desigual entre os estados.
Entre o silêncio e a denúncia
Para muitas mulheres, denunciar é difícil. Falta informação, acolhimento e caminhos claros. A presença de doulas tem sido fundamental para romper esse ciclo, explica Danny Silva:
“Quando a mulher consegue nomear a violência, ela se fortalece para não aceitá-la.”
Do ponto de vista jurídico, Andreza orienta: o primeiro passo é solicitar o prontuário médico, registrar tudo e buscar apoio — da ouvidoria ao Ministério Público ou à Defensoria.
Violências verbais e psicológicas também são passíveis de responsabilização.
Marcha das Mulheres Negras: a dor que vira luta
A Marcha das Mulheres Negras, que acontece em 25 de novembro em Brasília, tem o racismo obstétrico como uma de suas principais pautas. A expectativa é reunir 1 milhão de mulheres de todo o país para reivindicar direitos, denunciar desigualdades e defender o bem viver — tema central da mobilização.
Day, Janaínis e Ângela articulam formas de participar, levar outras mulheres e transformar suas vivências em ação política. Para elas, a marcha é espaço de visibilidade, pertencimento e justiça.
“É o momento de dizer: estamos aqui, existimos e queremos viver com dignidade”, afirma Ângela.
A pesquisadora Emanuelle Góes resume o sentido da mobilização:
“O bem viver, a reparação e a justiça reprodutiva são parte de uma mesma luta. É sobre construir um mundo que também seja para as mulheres negras.”
Fonte: Gênero e Número





