Celebrado em 4 de fevereiro, o Dia Mundial do Câncer integra uma mobilização internacional liderada pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS). A data reforça a importância de discutir estratégias de prevenção, diagnóstico e cuidado diante de doenças que seguem como desafios globais de saúde pública, entre elas o câncer de colo do útero.
No Brasil, essa doença representa um dos principais paradoxos do sistema de saúde. Apesar de ter causas bem conhecidas, métodos eficazes de prevenção e rastreamento disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) e uma meta internacional de eliminação estabelecida pela OMS, o país registra cerca de 17 mil novos casos por ano e entre 7 mil e 8 mil mortes anuais. Esses números não refletem a falta de tecnologia ou de conhecimento científico, mas sim dificuldades persistentes na organização do cuidado, na comunicação com a população e, sobretudo, na capacidade de alcançar mulheres em situação de maior vulnerabilidade.
Globalmente, o câncer de colo do útero é o quarto tipo mais frequente entre mulheres. No Brasil, ocupa a terceira posição. Há aproximadamente cinco décadas, o país mantém um programa nacional de rastreamento baseado no exame citopatológico, o Papanicolau. Embora essa estratégia tenha contribuído para a redução da incidência da doença, seu impacto sobre a mortalidade tem sido limitado.
Na prática, o rastreamento beneficiou principalmente mulheres que já acessam regularmente os serviços de saúde. Em contrapartida, aquelas que nunca realizaram exames preventivos continuam chegando aos serviços especializados com a doença em estágio avançado, o que compromete as chances de tratamento e sobrevida. São esses casos que mantêm os índices de mortalidade elevados.
A persistência desse cenário indica que o problema não está na ausência de informação sobre a doença, mas na forma como as políticas de prevenção vêm sendo implementadas. O modelo adotado até agora apresenta baixa capacidade de atingir populações mais vulneráveis, especialmente mulheres que enfrentam barreiras sociais, territoriais e institucionais para acessar os serviços de saúde.
Nesse contexto, a incorporação do teste de DNA do HPV ao SUS, aprovada em 2023, representa uma mudança relevante na política de rastreamento. Diferentemente do Papanicolau, que identifica alterações celulares já provocadas pelo vírus, o novo teste detecta a presença do HPV de alto risco antes do surgimento das lesões. Isso permite estratificar o risco, acompanhar de forma mais intensiva as mulheres com maior probabilidade de desenvolver a doença e ampliar os intervalos entre exames quando o resultado é negativo.
Após experiências-piloto em algumas capitais, o Ministério da Saúde iniciou, em 2024, a implementação gradual do teste, com previsão de expansão para todos os estados até 2026. Além de ser mais sensível, a nova tecnologia possibilita a autocoleta, o que pode ampliar o alcance do rastreamento em territórios historicamente desassistidos.
A base da prevenção do câncer de colo do útero continua sendo a vacinação contra o HPV, vírus presente em cerca de 99% dos casos. Disponível gratuitamente no Brasil desde 2014, a vacina é segura, eficaz e capaz de prevenir a maior parte dos tumores associados ao vírus quando aplicada antes do início da vida sexual. No entanto, a vacinação não elimina o risco para as gerações de mulheres adultas que já tiveram contato com o HPV, o que mantém o rastreamento como estratégia complementar e indispensável.
Para que a incorporação do teste de DNA do HPV produza impacto real, especialistas destacam que não basta a substituição de uma tecnologia por outra. É necessário reorganizar o cuidado, investir na busca ativa de mulheres nunca rastreadas, integrar sistemas de informação e fortalecer a comunicação sobre a importância do exame. Sem essas medidas, o risco é reproduzir, com uma nova ferramenta, as limitações que marcaram o modelo adotado nas últimas décadas.
Fonte: Agência Patrícia Galvão





