No bioma conhecido como “berço das águas” do Brasil, mulheres indígenas, quilombolas e agricultoras familiares relatam uma realidade marcada pela falta de acesso à água e pelo aumento da insegurança alimentar. Embora o Cerrado concentre nascentes de oito das doze principais bacias hidrográficas do país, comunidades tradicionais denunciam que o recurso tem se tornado cada vez mais escasso ou contaminado.
Moradora de uma comunidade indígena em Minas Gerais, Célia Valdemar descreve a dificuldade cotidiana de manter hortas, criar animais e preparar alimentos sem água suficiente. A situação, segundo ela, compromete não apenas a alimentação, mas também práticas tradicionais de cuidado, como o cultivo de ervas medicinais.
Pesquisas recentes indicam que a região central do Brasil enfrenta a seca mais severa dos últimos séculos. Estudos apontam ainda que o Cerrado pode perder até 34% de seu volume de água até 2050, com redução significativa no fluxo de grande parte de suas bacias hidrográficas. Especialistas relacionam esse cenário à expansão de monoculturas e ao uso intensivo da terra, fatores que agravam as mudanças climáticas e pressionam os recursos naturais.
Impactos desiguais
Nas comunidades rurais, a escassez hídrica afeta de forma direta a rotina das mulheres, que tradicionalmente concentram as tarefas de cuidado com a casa, os filhos e a produção de alimentos. Relatos apontam aumento da sobrecarga física e emocional, especialmente entre mães solo.
Para lideranças quilombolas no Maranhão, a degradação ambiental atinge primeiro os corpos e o cotidiano das mulheres. Além da redução da água disponível, há denúncias de contaminação por agrotóxicos e de restrições de acesso a áreas tradicionalmente utilizadas para extrativismo e agricultura de subsistência.
Dados de organizações socioambientais indicam que o Cerrado concentra a maior parte dos agrotóxicos utilizados no país. A expansão da soja, responsável por grande parcela desse consumo, ocupa milhões de hectares no bioma. Relatórios também apontam presença de resíduos químicos em amostras de água coletadas em comunidades tradicionais.
Conflitos por território
A disputa por terra e água tem intensificado conflitos em diferentes regiões do Cerrado. Em áreas indígenas e quilombolas, lideranças relatam cercamento de territórios, desvio de cursos d’água e pulverização aérea de agrotóxicos próximos às moradias.
No Maranhão, quebradeiras de coco babaçu denunciam a redução de babaçuais devido ao desmatamento e à expansão agropecuária. A atividade, tradicionalmente desempenhada por mulheres, garante renda e alimentação para centenas de famílias. Com a diminuição das palmeiras e a instalação de cercas, muitas relatam dificuldade para acessar as áreas de coleta.
Segundo dados do MapBiomas, o Cerrado lidera o desmatamento entre os biomas brasileiros nos últimos anos. A agropecuária é apontada como principal vetor da perda de vegetação nativa. O bioma também apresenta a maior média anual de áreas queimadas no país nas últimas décadas.
Água e segurança alimentar
Especialistas destacam que a segurança alimentar está diretamente ligada ao acesso à água em quantidade e qualidade adequadas. Sem água, não há produção agrícola, preparo de alimentos ou manutenção da saúde.
Estudos indicam que a insegurança alimentar atinge com maior intensidade domicílios chefiados por mulheres negras na zona rural. Além da escassez hídrica, essas famílias enfrentam limitações de acesso a políticas públicas e crédito agrícola.
Organizações da sociedade civil defendem que a proteção do Cerrado deve considerar os direitos territoriais de povos e comunidades tradicionais, além da implementação de políticas voltadas à convivência com o clima semiárido, como sistemas agroflorestais e tecnologias de captação de água.
Resistência e estratégias comunitárias
Apesar dos desafios, mulheres do Cerrado articulam redes de apoio e iniciativas de fortalecimento da produção local. Projetos de recuperação de espécies nativas, bancos de sementes e sistemas agroecológicos têm sido implementados em diferentes comunidades.
Agricultoras relatam a importância da troca de sementes e do planejamento coletivo das safras para garantir alimento ao longo do ano. A preservação de conhecimentos tradicionais é vista como parte central da resistência frente à degradação ambiental.
Para lideranças comunitárias, manter o Cerrado vivo é também garantir a permanência das populações no campo, com autonomia alimentar e respeito aos territórios. A defesa da água, afirmam, é indissociável da defesa da vida e da continuidade cultural das comunidades que historicamente habitam o bioma.
Fonte: Le Diplomatique





